domingo, 7 de janeiro de 2018

DINOS




Tinha o cabelo, um conjunto de tufos acajus já mais pro amarelo, penteado ao meio. Corrente de ouro no pulso e outra no peito. Imaginei que possuísse um pente Flexa Carioca no bolso traseiro da calça, essa talvez de tergal.

Subia a serra com seu Monza.

Emparelhei duas vezes com ele pq o meu Ford Ka também não imprimia velocidade suficiente ao atrito do asfalto.

Camisa de voil. Havia um macaquinho mug de pelúcia balançando no retrovisor. A patroa ia sentada no banco do passageiro sem pronunciar palavra.

Pensei aqui com meus botões que aquele era um tipo de homem em franco processo de extinção. Quis fotografá-lo, talvez acenar, mas desisti.

Com grande esforço, esses homens se habituaram ao WhatsApp no celular, ao caixa eletrônico, ao pedágio Sem Parar, ao aplicativo de Zona Azul, à propaganda e aos fogos de artifício virtuais do futebol na TV. Mas eu sinceramente os vejo em franca desaparição. Não terão saco para a realidade virtual da Magic Leap.

Em Curitiba, meu chefe no departamento de pessoal da construtora, em 1980, tinha letra bonita e língua presa. Ele pagava a quadra de futebol society com cheque e ia embora de calção Adidas de índio com a capanga de couro sob o braço, sempre me lembro disso. Nunca suava a camisa do jogo. Todos éramos como filhos para ele, o paternalismo o projetava como uma autoridade natural.

Conheci esses homens em seu auge, nos anos 1970. Trabalhei para um relojoeiro e um contador que chegavam ao trabalho com capangas de couro sob o braço. Tomavam drinques de Vermute no bar, sempre sozinhos. Conservadores e de poucos sorrisos, tinham o carro como o centro de sua vida social. Passaram dos fuscas para o Corcel, depois os Chevettes e os Opalas Comodoro e os Monzas. 

Boa parte deles parou por aí, como se tivesse chegado a um processo de criogenização do status - aquele que subia a Serra do Mar era um desses.

Laudelino, que jogava bola conosco em 1979 e chamava a si mesmo de “Kempes” quando fazia algum gol, será que ainda está lá no Noroeste do Paraná?

Evandro Mesquita, em A Grande Família, me lembrava muito daqueles caras - provavelmente porque o próprio Evandro é mesmo um deles. Agostinho (Pedro Cardoso), certamente tinha muito deles, mas como era demasiadamente produzido pelas figurinistas, nem sempre tinha credibilidade. Javier Bardem no filme dos Irmãos Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez, tinha um componente muito evidente desses caras que encontro menos hoje em dia.

Eu vejo o Tite comemorando gol com calça skinny e sei que não é ele quem está naquelas pernas comprimidas dentro das calças. Vejo o Renato Gaúcho de gravata e camisa para fora das calças e sei o que aconteceu. Ele mesmo contou o que aconteceu: a filha. “Nunca mais vou repetir isso”, jurou. São as filhas do Dunga tentando embalar todos esses homens de um tempo perdido em papel vegetal.


Se você chegou até aqui esperando pelo desfecho, esqueça: essa divagação não tem nenhum propósito. A extinção tem um escalonamento inevitável e minha geração de camiseta branca da Hering já está fazendo fila. Mas o bacana mesmo é esse período em que ficamos habitando um limbo, como os degredados da Zona Fantasma de Krypton.



Um comentário:

Guilherme Vaz disse...

Lindo texto, melancólico como o esguicho de água lavando o carro num sábado à tarde.