domingo, 22 de janeiro de 2017

CONSPIRAÇÃO NO DOS OUTROS É REFRESCO






Dizer que é preciso investigar é obviedade. Parafraseando Dylan, ninguém precisa de um jornalista para lhe dizer de que lado sopra o vento.

Mas dizer que não é necessário investigar era novidade, ao menos para mim. Ridicularizar a única hipótese diferente de acidente equivale, na minha lógica, a dizer que é desperdício de tempo investigar. Mas notei que esse foi o comportamento preponderante na imprensa nesse caso da queda do avião que matou o ministro do STF, Teori Zavascki.

Tudo bem. Acredito que a imprensa tem autogestão suficiente para decidir como se posicionar coletivamente num acontecimento dessa dimensão. Mas, conversando com meu filho, ele me chamou a atenção para um outro evento que aconteceu em janeiro de 2015 na Argentina: a morte do promotor Alberto Nisman, encontrado em seu apartamento em Buenos Aires com um tiro na cabeça.

Naquele caso, talvez por se tratar de um governo pouco estimado pela imprensa brasileira, não houve o menor cuidado em se manter a precaução quanto ao conspiracionismo. Ou em estabelecer relação entre efeito e causa.  Durante um ano, li manchetes como as seguintes:

O Globo: “Governo Kirchner está por trás da morte do promotor Nisman, diz ex-espião”

IG: “Promotor argentino que denunciou Cristina Kirchner é encontrado morto”





O Jornal Nacional, que fez uma arte sobre os exageros  na tese do assassinato de Teori, nunca teve dúvidas em usar imagens de arquivo da ex-presidente Cristina Kirchner para ilustrar a relação entre o assassinato de Nisman e sua investigação:


A imprensa argentina teve menos dúvida ainda. Tanto que analistas políticos concluíram que a morte de Nisman teve peso fundamental na derrota eleitoral de Cristina, levando Mauricio Macri ao poder. Até hoje, a imprensa local não se conforma com a decisão da junta médica que analisava o crime:
É compreensível a resistência a um laudo oficial? Claro. Desconfiar sempre. Mas, ao contrário do papel de Zavascki nas investigações em curso no Brasil, o próprio Alberto Nisman tinha declarado que não dispunha de “pruebas” contra o governo argentino. Aqui, provas abundam. Temos dezenas de manchetes com o seguinte teor (sem falar nos personagens periféricos da trama):




É possível então diferenciar Teorias de Conspiração de direita ou de esquerda (admitindo-se, é claro, que a imprensa brasileira seja de direita e afeita a um golpe de Estado, classificação que a imprensa brasileira considera como parte de uma grande Teoria da Conspiração)? Haveria crimes e criminosos diferenciados e hierarquias de participação criminosa nessa estratificação política? Deveríamos investigar isso também?


domingo, 15 de janeiro de 2017

CHACRILONGOS







9 ou 10 COISINHAS QUE ACHEI QUE VOCÊS PRECISAVAM SABER SOBRE PERNILONGOS


1. Pernilongo não morre por acidente ou de causas naturais.  É preciso matá-lo com as próprias mãos. Não há almofada leve da qual eles não possam escapar

2. Pernilongo, ao contrário do que  supõe a sabedoria popular, não tem um limite de drenagem do seu sangue, não obedece um teto. Todos os pernilongos de São Paulo fizeram cirurgia de ampliação do estômago nas clínicas do Rio Pinheiros; e, mesmo roliços, podem ser tão ágeis quanto o Zico nas peladas Amigos do Neymar X Amigos do Galinho de final de ano;


3. "Pernilongo que zumbe não pica" é uma lenda urbana. Os que picam zumbindo em geral são ritmistas do Candeal Ghetto Square; não há refúgio contra a sua alegria, e ela pode chegar até as ramblas de Barcelona       

4. Não há inseticida melhor que o outro: todos dão barato nos pernilongos, mas alguns são como a tal cocaína do Peru: provocam chacinas terríveis nas batatas das suas pernas
    
5. Pernilongo é igualzinho filme de ação; se você matar todos, mas deixar o Bond vivo amarrado dentro de um tanque de tubarões, ele vai escapar e, sozinho, vai fazer o trabalho de todos os outros, vai explodir sua estação espacial e seu raio da morte; se você não achar o corpo, significa que não morreu

6. Pernilongo só trabalha no varejo? Olha, você tem a seguinte situação: um Geddelongo pega 1 milhão, um Cunhalongo 2 milhões, o temível Temerlongo morde 4 milhões, e daí o q é varejo para o anêmico?

7. Pernilongo atua com um esquema de dumping. Notem que, no parque ou na praia, eles não permitem que as muriçocas atuem no mesmo lugar e no espaço de tempo que eles

8. Ao explodir um pernilongo derrubado no chão, o sangue que escorre não é uniforme; há o de bolhas escuras, o estelar (vira estrela quando macetado), o bala dundum (que se espalha por todo o chão). Curioso é que, no lençol, ele sempre vira um filete, como um córrego de vida curta

9. Não há relação expressiva entre os hematomas causados por uma nuvem de pernilongos (como a que enfrentei na noite passada) ou por um único combatente Chuck Norris da espécie

10. Assim como o petróleo, eu acredito nas teses conspiracionistas acerca dos pernilongos; o poder público não quer eliminá-los definitivamente (assim como não quer substituir os combustíveis fósseis) por conta das empresas de George W. Bush e dos pretextos geopolíticos para as guerras no Oriente Médio



PS: O Chacrilongo do título é uma homenagem ao Silvio Brito, de quem provavelmente só eu e o Edvaldo Santana nos lembramos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

LISTÃO


As mais tocadas de 2016 segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos (Ecad). É uma lista não muito confiável, mas pode ser usada como rascunho.
A número 1 é de Marcos e Belucci, em brodagem com Wesley Safadão, que também tem a número 2.
Wesley Safadão no topo não é surpresa.
A número 3 é de Jorge e Mateus.
Tim Maia, Benjor e Gonzagão é que mostram tenacidade.
E Adoniran, lá no finzinho da lista!



Posição
Músicas
Autores
1
Aquele 1%
Benicio Neto/Vinícius Poeta
2
Assiste aí de camarote
Barros Neto/Jota Reis
3
Sosseguei
Thallys Pacheco
4
Farra, pinga e foguete
Thales Belchior/Paulo Stein/Gustavo Protásio
5
Vai vendo
Magno Santana/Flavinho do Kadet/Lucas Lucco/Tierry Coringa
6
Suíte 14
Mauricio Mello
7
Aquele gelo que você me deu (gelo na balada)
Barros Neto/Jota Reis/Raniere Mazilli
8
Hoje eu tô terrivel
Luiz Henrique Bigato
9
Paredão metralhadora
Aldo Rebouças/Tays Reis
10
Vou dar virote
Shylton/Gabriel do Cavaco
11
Maus bocados
Gerson Gabriel/Rafael/Bruno Varajão
12
Não quero dinheiro
Tim Maia
13
Isso cê num conta
Rick e Nogueira/Thiago Teg/Douglas Cezar
14
Até você voltar
Juliano Tchula/Marília Mendonça
15
Os anjos cantam
Magno Santana/Tierry Coringa
16
Meu violão e o nosso cachorro
Simaria Mendes/Nivardo Paz
17
O que acontece na balada
Nando Marx/Douglas Mello/Flavinho Tinto
18
10 %
Gabriel Agra/Danillo Dávilla
19
Jeito carinhoso
Allê Barbosa
20
País tropical
Jorge Ben Jor
21
Toca um João Mineiro e Marciano
Nando Marx/Douglas Mello/Jadson/Flavinho Tinto
22
Sou ciumento mesmo
Conde Macedo/Barros Neto/Jota Reis
23
Praieiro
Manno Góes
24
Nocaute
Samuel Deolli/André Vox
25
Cê que sabe
Rafael/Pedro Netto/Kauan/Dudu Borges
26
Não tô valendo nada
Henrique Tavares/Juliano
27
Bang
Umberto Tavares/Jefferson Junior/Anitta
28
Made in roça
Lara Menezes/Dayane Camargo/Ray Antonio/Victor Gabriel/Henrique Batista/Gustavo Martins/Everton Matos
29
Que sorte a nossa
Fernando/Luiz Henrique/Paula Mattos
30
Fiquei sabendo
Caninana do Forró/Hélio Rodrigues
31
Telefone mudo
Franco/Peão Carreiro
32
Amiga parceira
Dj Dash/Dh/Mc Menor
33
Lepo lepo
Magno Santana/Filipe Escandurras
34
Seu polícia
Junior Angelim
35
Asa branca
Humberto Teixeira/Gonzagão
36
Logo eu
Samuel Deolli/Filipe Labret
37
Baile de favela
Mc João
38
Evidências
José Augusto/Eurico Freitas
39
Segunda opção
Conde Macedo/Barros Neto/Jota Reis
40
Boate azul
Benedito Seviero/Tomaz
41
Calma
Elcio Di Carvalho/Gustavo/Marília Mendonça/Fred Willian
42
How deep is your love
Ina/Luke Mac/22 Lockdown/Calvin Harris/Nathan Duvall
43
Eu só quero um xodó
Anastácia/Dominguinhos
44
Devagarinho
Delano Axel Silva Amaral
45
Domingo de manhã
Bruno Caliman
46
Eva
Katamar/Umto/Ficarelli
47
Fui fiel
Pablo/Filipe Escandurras/Magno Santana/Fabio O'Brian
48
Novinha vai no chão
Ricardinho
49
Na hora da raiva
Gustavo Moura/Thiago Servo/Rafael Moura/Cinara Sousa/Matheus Costa
50
Trem das onze
Adoniran Barbosa

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

DISCOS DE DESTAQUE DE 16





Ainda burilando minha lista de impactantes do ano (entre os CDs nacionais lançados e que eu ouvi, evidentemente), votei nesses aqui. Espero ainda incorporar mais um ou dois:

AMAZÔNIA ÓRBITA
DANTE OZZETTI - Na cocha de retalhos de ritmos de Dante, um Brasil novo emerge. Boi de Brinquedo começa com uma aclimatação que poderia perfeitamente estar em um disco do Thom Yorke, mas daí evolui para Tom Jobim - e perfeitamente pode ter sido matriz de tudo isso ou tudo aquilo. Pesquisa de composição, algo que só um heroi ou um visionário (ou ambos) é capaz de empreender nos dias de hoje.

FACCIAMO L’AMORE
CARLOS CAREQA - Careqa parece que, como um Coronel Fawcett do pop, foi atrás de saber o que tinha causado o gap entre Gianni Morandi e a paixão pela canção italiana dos anos 1960 no Brasil e o deserto de agora. Com um italiano de ginasial, produziu talvez um dos discos instrumental e vocalmente mais sofisticados do ano que termina - sem falar no humor sutil. A faixa-título, com Mafalda Minozzi nos vocais, é simplesmente fenomenal.

SÓ VOU CHEGAR MAIS TARDE
EDVALDO SANTANA - Escrevi o release, deveria me abster de recomendar. Mas como fiz por camaradagem (e porque o disco merece), achei que seria cabotino deixar de fora. Bluesy, rock’n’roll, sambalançado, arredondado, cristalino, cheio de histórias de uma vida de integridade e malandra observação. Artista que esquiva de bala perdida com ginga e blues no sangue.

CROCODILO
JONNATA DOLL E OS GAROTOS SOLVENTES - João Penca dos Inferninhos da Iracema, Jonnata Doll é Stooges com Plebe Rude, uma mistura boa da moléstia. Têm rusticidade calculada, mas sem imbecilizar as rimas nem os recados.

DUAS CIDADES
BAIANA SYSTEM - Não tem como fugir: a escolha territorial do Baiana System, a frente de batalha das massas, do povo, os credencia a grande acontecimento musical da temporada. Jah Jah Revolta parece retomar um fio evolutivo deixado como rastilho de pólvora lá atrás por Chico Science. Já Bala na Agulha pega rima abandonada por Black Alien e vai umas mil milhas adiante. Falsamente low fi, francamente dodô&osmariado, máquina de louco.

SAMBA ORIGINAL
PEDRO MIRANDA - O surdo de barrica já não existe mais, mas na música de Pedro Miranda não há nada extinto. Pelo contrário: tudo revive, tudo tem peso de História, mas nada tem poeira. Não é só essa sua qualidade, mas a leveza com que ele conduz sambas de Zé Keti, Assis Valente, Noel, Wilson Batista, Geraldo Babão, Batatinha, Franklin da Flauta e Aldir Blanc e até de Luiz Gonzaga é algo que o distingue barbaridade dos outros de sua geração. Esse disco já é referência.

AMOR GERAL
FERNANDA ABREU - Está vibrando mais o caos que a beleza na nova levada de Fernanda Abreu, agora com 54 anos. Disco surpreendeu todo mundo que conheço, tem raiva e exorcismo e dance que ela garante, com subgrave no comando. Afrika Bambaataa, o pai da matéria, está pilotando Tambor, hit de nascença. “Sempre haverá um mané, sem noção, um otário querendo atrasar”, canta ela. Melhor da antiga safra hedonista.

NAS ESTÂNCIAS DE DZYAN
JULIANO GAUCHE - Saiu lá no comecinho deste ano que nunca mais terminará para o País, mas não tinha como esquecer (não estou com a capinha na mão, desorganização em casa, mas vai assim mesmo na lista). Alto artesanato, a voz mais bacana, os amigos mais exatos nos instrumentos: música é também feita de grandes camaradagens. Evoca umas sensações muito boas, umas manhas de Pavement, umas inflexões de Walter Schreifels, um condimento de Sergio Sampaio. “Vista um short, nós vamos andar!”.

MELHOR DO QUE PARECE
O TERNO - Perdi o texto no qual eu argumentava a respeito da excelência desse disco, mas me lembro que uma das coisas que destacava é que fizeram a melhor canção para Minas Gerais desde o Clube da Esquina, e olha que foi um sentimento de janela de avião. Rock autoral como há muito não ouvia. Merece lugar no ranking.

&

10 SHOWS INTERNACIONAIS
(dos que eu vi, aqui e lá)

1. NEIL YOUNG (Desert Trip Festival, Califórnia)
2. BOB DYLAN (Desert Trip Festival, Califórnia)
3. ROLLING STONES (Morumbi, São Paulo)
4. ROGER WATERS (Desert Trip Festival, Califórnia)
5. TINARIWEN (Sesc Vila Mariana, São Paulo)
6. DIE ANTWOORD (Lollapalooza, São Paulo)
7. THE WHO (Desert Trip Festival, Califórnia)
8. PAUL MCCARTNEY (Desert Trip Festival, Califórnia)
9. SCORPIONS (Citibank Hall, São Paulo)
10. WHITESNAKE (Citibank Hall, São Paulo)



domingo, 4 de dezembro de 2016

OS INFILTRADOS



Ia começar a fazer o tradicional balanço do ano, com discos e shows (e vou fazer isso, claro, é tradição). Mas aí me dei conta, fazendo um retrospecto mental do que se passou, que uma das marcas dos últimos acontecimentos foi o drible nas expectativas. Personagens que pareciam uma coisa e eram outra (ou que deviam ser uma coisa e não eram nada). Que jogavam em um time e de repente tiraram a camisa e tinham a camisa do adversário por baixo. Ei-los:

Marcelo Calero - Dava pinta de bibelô, jogava para a plateia, postava selfie com bichinho, fez devassa macartista no ministério da Cultura como qualquer golpista de resultados, tinha passado de tucano, nomeava tucano, falava como tucano. Mas, ao fim e ao cabo, o ex-ministro da Cultura que ficou somente seis meses no cargo revelou-se um verdadeiro Cavalo de Troia dentro do golpe, evidenciando a gravidade do uso do Estado como instrumento de satisfação de interesses pessoais mais comezinhos. Mais republicanamente ainda, preparou-se para o assédio em graus diversos, sabedor que a carteirada tosca sempre tem um patrocinador tosco um degrau acima. Gravou todo mundo, entregou ao MPF só a gravação que não o tornaria réu e ficou vendo o circo pegar fogo. Vai se eleger deputado federal no Rio com uma mão nas costas. E declarou recentemente que nem tucano era: teria assinado ficha de filiação ao PMDB no ano passado.

Bonde do Rolê - Funkeiro curitibano já era uma contradição em termos quando surgiu o grupo Bonde do Rolê, com apresentações anímicas e que renderam em uma ou duas edições do finado Skol Beats. Pedro D’Eyrot era um terço da trupe que chegou até o Roskilde Festival, no auge da curiosidade. Mas pouca gente imaginaria que ele seria também Pedro Augusto Ferreira Deiro, um dos fundadores do teleguiado Movimento Brasil Livre (MBL). Financiado por partidos para criar uma direita palatável e sem ficha corrida (como já tinha acontecido quando criaram o sindicalismo de resultados), o “movimento” tem faturado em cima da crise política e elegeu até uns bagres aqui e ali. “A música do Bonde estabeleceu pontes entre o funk carioca, o electro e o rock. O MBL estabelece pontes entre conservadores, liberais e sociais democratas fiscalmente responsáveis. Quem rejeita o diálogo, para mim, é intolerante”, disse Diderot, digo D’Eyrot.

Katia Abreu - Ruralista de convicções motossérricas, a fazendeira passou o rodo nas definições masculinas de fidelidade. Primeiro, jogou vinho no mais infeliz piadista de salão desde o Amigo da Onça. “Me respeite que sou uma mulher casada e, mesmo quando solteira, ao contrário de você, nunca traí”, disse ela ao colega José Serra. Depois, postou-se contra seu partido na defesa da manutenção do mandato de Dilma Rousseff, mesmo ameaçada de expulsão. Segue firme ao lado da ex-presidente, citando Fernando Brandt: “Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito”. O lado esquerdo dela é o direito, mas tudo bem. Votou contra a PEC do Teto e disse que é preciso rachar a conta da crise. Faz muita gente da extrema-esquerda parecer malufista. E tem um senso de humor que não estava previsto no roteiro. “E o processo contra mim na comissão de ética do PMDB pedindo minha expulsão foi aberto pelo ex-ministro Geddel. Quanta ironia do destino”, tuitou Kátia, na semana passada. Hahahahaha.

Hipster da Federal - Orgulhoso da única missão que lhe confiaram na carreira, a de babá de preso, não será surpresa se o policial Lucas Valença surgir como uma das estrelas do próximo Big Brother Brasil. Sua escolha, como a de tantos escoltadores, não foi acidental: ele participara de passeatas pelo impeachment, tinha posição política e achava Eduardo Cunha, como outros colegas, “inteligente” e “digno”. Ganhou 200 mil seguidores no Facebook do dia para a noite, após descobrirem que sua segunda profissão era descamisado, e deslizou do serviço de escolta para o de celebridade de programa de TV. Suas últimas façanhas públicas foram negar que tinha sido exonerado e que tinha empresário como qualquer outro astro sertanejo.

Jurado do Oscar - Depois que a Associação Paulista de Críticos de Arte nomeou Aquarius como o filme do ano, a pergunta que não quer calar é: quem era o prestigioso ensaísta nomeado pelo governo Temer unicamente para barrar Aquarius na corrida do Oscar? Se não está entre os críticos paulistas, onde andará? O longa de Kleber Mendonça está na lista dos grandes filmes de 2016 da Cahiers du Cinema, disputa o Spirit Award, etc etc etc. O fato é que esse episódio serviu para mostrar que dirigismo e intervencionismo cultural não são exclusividades do stalinismo, mas podem estar contidos nas mais amplas frentes de “coalizão” partidária.  

Delcídio Amaral - Talvez o mais óbvio dos infiltrados, o ex-senador foi apanhado com a boca na botija, apavorado com a possibilidade de ir em cana. Oferecia rotas de fuga para um convicto. O rito com que foi cassado talvez tenha sido o mais rápido da História da República. Virou disputado delator de imprensa, fazendo o papel de vítima distraída em quase todas as ocasiões. Até que se empolgou: pegou uma Harley Davidson Fat Boy de 1.600 cilindradas e violou a prisão domiciliar, indo participar de passeata na Paulista no dia 13 de março. “É uma coisa. Uma sensação incrível. Se a pessoa está na garupa e não se segura direito, cai para trás quando a gente arranca. Eu coloquei um capacete e fui à Paulista por volta de 2 da tarde de domingo. Uma maravilha a sensação de liberdade. O clima ali era de Copa do Mundo. Acabou o governo”, disse.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LUIZ BRAGA




A mãe e a menina da boneca se reencontram em uma fotografia tirada clandestinamente em 1985



Dirigindo preguiçosamente outro dia numa manhã de domingo em São Paulo eu fiquei comparando a cidade com aquela que eu conheci quando cheguei aqui, em 1987.

Acho que o que mais me chama a atenção hoje é o bombardeio gráfico. Há zilhões de grafites, inscrições, frases, pixos, caricaturas e até charges. São Paulo era mais cinzenta e gutural, não havia essa polifonia toda. Os grafites se profissionalizaram enormemente, há desenhos estonteantes. Creio que prevalece um tom espirituoso no discurso, um estilo debochado-defensivo que alguém chamou de “ceticinismo” lá nos anos 1980. Entre as frases mais destacadas, tem muitas coisas que são parentes daquele famoso “o amor é importante, porra!”.

Recordo que, no mesmo ano em que cheguei aqui, conheci Alex Vallauri. Ele estava dando uma oficina de grafite numa lona de circo (não lembro se era o antigo Circo Benetton). Alex havia vivido em NYC no momento da explosão do grafite, com a emergência da arte de Basquiat e os outros, e demonstrava grande entusiasmo com a possibilidade de ensinar a um bando de garotos aquilo que tinha aprendido, a capacidade de subverter o olhar de uma cidade, uma metrópole. A lona do circo estava repleta de discípulos dele, meninos que nem mesmo sabiam porque faziam o que faziam.

Tanto aqueles primeiros grafiteiros quanto eu mesmo acreditávamos que a ocupação visual da cidade redundaria, a longo prazo, numa espécie de educação intelectual, política, sentimental e comportamental da população. Estávamos otimistas. Vemos hoje que não há relação entre uma coisa e outra; o moralismo está recrudescendo, a ignorância deu cria, a barbárie eleitoral se aprofundou. Vejo Nuno Ramos lutando contra a impunidade do assassínio do Carandiru com sua arte e não posso deixar de admirá-lo.

Desde Alex Vallauri, São Paulo se tornou uma sociedade muito visual, e paradoxalmente uma sociedade na qual a visualidade perdeu um pouco do seu impacto político. Não é que haja incapacidade de se comunicar. Pelo contrário: vejo manifestos visuais fantásticos, slogans políticos lindos, tudo é sedutor, forte. Mas parece que ninguém se importa, a política visual não mobiliza, embora tenha um escopo muito envolvente de décor, de elementos fashion.

Pode ser que seja um sintoma de época. Só para exemplificar: a foto da menina correndo com o corpo queimando de Napalm precipitou o fim da Guerra do Vietnã. Já a foto da criança morta numa praia da Turquia não mudou em nada a situação dos refugiados, embora compartilhada à exaustão. Temo que isso esteja relacionado com uma certa banalização da denúncia (ou a uma estratégia de estratificação social das denúncias).

Se me lembro bem, a denúncia séria sempre teve um caráter de aprimoramento social e político. A imprensa se robustecia nela. Hoje, enfraquece-se com sua própria seletividade denuncista. Um político conhecido pelo moralismo e discurso espartano não resistia a uma foto antiga de ficha policial ou à descoberta de uma amante em Barcelona. Agora, despejam-se quilos de e-mails comprometedores e escutas cabeludas e nada acontece. A conta na Suíça é numerada, tem depositantes identificados e movimentação pelo beneficiário, mas o político flagrado mantém influência suficiente para orientar o afastamento de um Chefe de Estado ou segue imperturbado em seu cargo no Itamaraty.

Por isso, acredito, o discurso da menina Ana Júlia na Assembléia Legislativa do Paraná tenha tido um impacto tão profundo. As palavras que ela usou não estavam viciadas, não vinham carregadas de media training. A sua lógica cristalina (“De quem é a escola? A quem a escola pertence?”), a atribuição direta de responsabilidades (“A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas”), a clareza na identificação dos bloqueios (“A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês; nós temos que ver tudo o que a mídia nos passa, fazer um processo de compreensão”): tudo nela traía preocupações básicas, simples, fundamentais.

A crise, ou o que quer que se esconda sob esse nome, trouxe no seu bojo a institucionalização da bajulação e, por consequência, a mentira e o medo. O cinismo criou um fog que encobriu a verdade da indignação, perdeu-se o sentido de autopreservação comunitária. A violência classista virou mérito. As milícias do pensamento fustigam os fóruns de internet e fomentam perseguição ideológica, religiosa, de gênero. Entretanto, há momentos de sinceridade que se sobrepõem ao tsunami de discursos e virulência. Quando acontecem, marcam e indicam direções. Parece que há um movimento no sentido de recuperar a voz, sair desse emudecimento compulsório que nos é imposto no momento de maior potencial de comunicação da nossa existência recente.

Conversei há alguns dias com um fotógrafo especial, o paraense Luiz Braga, que é o centro da exposição Natureza Humanizada, no Museu de Arte de Belém, uma maravilha a 5 minutos de caminhada do Mercado Ver O Peso. Ele fotografa personagens anônimos de periferias e regiões ermas de Belém e outras cidades do Norte do País desde os anos 1970. Com muitos dos fotografados, o fotógrafo não trocou mais do que duas palavras. O curador Diógenes Moura garimpou no meio dessas fotos e fez um trabalho que é um marco da fotografia. O mais bacana é que algumas das pessoas retratadas se reencontraram com seu passado visitando a exposição, com histórias muito legais.


Houve o caso de uma senhora que ele tinha fotografado com as três filhas na manhã de Natal de 1985. “A filha que então era uma menina com sua boneca agora era professora. Encontros como esse são maravilhosos”, me disse o Braga. Houve também o relato da neta de um barqueiro que ele fotografou em Manaus em 1992 e que, viajando, abriu a revista de bordo e reencontrou o avô muito amado que havia falecido havia 2 anos. “O relato emocionado dela me fez perceber o quanto a fotografia é importante. Enviei o livro que tinha a fotografia dele e quando voltar a Manaus quero visitá-los, pois percebi a bela família que ele construiu”.




Acima, o açougueiro Alazir encontra-se consigo mesmo décadas depois




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PARADOS NAS OFICINAS


interior da oficina amacio mazzaropi, fechada atualmente



ALCKMIN ACABA COM OFICINAS CULTURAIS


Centros culturais, que atendem 400 municípios, começam a ser desarticulados pela gestão do PSDB



O governo do Estado de São Paulo iniciou essa semana o processo de extinção das 10 unidades do interior de São Paulo das Oficinas Culturais, espaços gratuitos de lazer que existem há 30 anos. A maioria delas existe em regiões carentes de infra-estrutura cultural, e convertia-se no único espaço do tipo.

Serão mandados embora da sede da instituição, no Bom Retiro, três coordenadores, um coordenador administrativo, um articulador, um assistente e todo o departamento financeiro das oficinas, cerca de 13 funcionários. Entre os dispensados, está o escritor Gonçalo Jr, autor de A Guerra dos Gibis e outros premiados livros. Ao todo, estima-se que entre 40 a 50 servidores serão dispensados.

Release da própria Secretaria de Estado da Cultura informa, no site das oficinas, que elas são 15 unidades no Estado e são responsáveis por atividades gratuitas de formação e difusão cultural em diferentes linguagens artísticas,entre elas as artes plásticas, audiovisual, circo, performance, HQ, dança, fotografia, literatura, música, teatro e também gestão cultural. Atenderiam cerca de 400 municípios.


Em São Paulo, a Oficina Cultural Amacio Mazzaropi, no Brás, que oferecia cursos de teatro, está fechada para reforma há mais de dois anos. A gestão das Oficinas Culturais é da organização social Poiesis, cujo diretor administrativo é Clovis Carvalho, e recebeu este ano cerca de R$ 17,5 milhões do Estado de São Paulo para a gestão de diversas estruturas, como a Casa das Rosas, a Casa Guilherme de Almeida e as Fábricas de Cultura.