sábado, 17 de fevereiro de 2018

TUIUTI






Qual é o lugar da política na vida comum, cotidiana, da gente comum brasileira?

Eu, como jornalista, descobri mesmo antes de sair da universidade que, no jornalismo, esse lugar estaria reservado para as editorias de política, economia e internacional. Como muito cedo me acochambrei nos territórios da música, da literatura, do cinema, da cultura, política seria apontado a mim como algo para o qual eu não estaria habilitado (nem a fazer nem a palpitar).

Quando fui convocado pela primeira vez para cobrir uma eleição presidencial, a editora-executiva veio me cumprimentar cumprimentando a si mesma pela aquisição de um texto refinado de “comportamento”, como ela chamou, algo que poderia dar conta dos “respiros” entre as reportagens. Em outras palavras: eu encararia as frescurices, o pastel dos candidatos, as reportagens de apoio, o frufru da coisa.

Eu concordei imediatamente com ela: “Sou um analfabeto político, espero poder ser útil”, eu disse, rindo-me da minha própria ousadia: a de dizer claramente a ela que seu sonho em matéria hierárquica era justamente esse, ter um exército de analfabetos políticos à sua disposição para preencher sua expectativa de manipulação e consentimento.

Em duas ou três semanas, a editora descobriria que eu era perigosamente instruído naqueles domínios - um dia conto essa história. Só sobrou uma alternativa pra ela: me barrar na cobertura, restringir a circulação entre minha mesa e o cafezinho. Claro: sem assumir que era uma interdição. Eu já tinha a consciência de que havia uma guerra suja, jamais declarada, nos territórios da cobertura de política que vinha de muitos anos. Aturavam-se as diferenças, mas até o ponto em que elas não fossem diferentes demais. Ainda assim, havia algo de democrático naquilo, eu pensava.

Não que eu tivesse um currículo bárbaro nessa seara. A maior façanha foi nos anos 1980, quando fui julgado e posteriormente expulso da Casa do Estudante Universitário, entre outras barbaridades, por termos, eu e alguns amigos, colocado uma faixa DIRETAS JÁ PARA PRESIDENTE na fachada da residência universitária, na Avenida JK.

Não sei explicar porque tenho o germe da política na íris dos meus olhos (para citar uma notícia recente de uma mulher que descobriu vermes em seu olho). Teria sido melhor ter sido um palermoso inocente. Eu sempre soube, por exemplo, que a neutralidade dos repórteres da área de Política era uma farsa; 98% deles tinha um lado, 1% eram mercenários cujo lado seria determinado pelos prêmios que conseguiriam obter com suas informações. Os outros 1% eram muito muito burros, o que os levava a confundir até a si mesmos.

Portanto, a mim não restava outra saída a não ser fingir o grau de consciência política que eu tinha sobre esse universo. Vivi muito tempo assim: saía do esconderijo, atirava e depois, repreendido, me recolhia a um isolamento profundo, ia para o Gulag dos insensatos. Ficava alguns dias ou meses na solitária, depois me liberavam por necessidade de mão de obra. Conforme recrudesceu o debate político, as diferenças foram sendo extirpadas das redações, foi tudo ficando mais parecido com o sonho daquela antiga editora-executiva.

Escrevo tudo isso não porque tenha ficado subitamente memorialístico. É uma forma de introduzir ao debate que sobreveio com a fabulosa aparição do desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti.
Muita gente tem escrito sobre a Tuiuti. Eu li de tudo um pouco. E me detive basicamente nos argumentos da esquerda, que repete, como a direita, aquele cânone institucional da política. A Tuiuti, nessa ótica, seria uma coisa do povo que acertou fantasticamente ao tratar de algo que não é de sua "alçada". Já para a direita, errou fenomenalmente, como é do seu feitio.

Mas tratar a Tuiuti como mais uma “ousadia” carnavalesca com efeito circunstancial é errado, em minha opinião.

O que a Tuiuti fez, e me deixou profundamente balançado, foi ter invadido o terreno “exclusivo” da política com o mais duro, eficaz, jornalístico, político e ético dos discursos. A Tuiuti dinamitou uma bolha.

A política vinha se tornando uma coisa muito reativa no mundo atual. Após uma decisão monocrática do STF, um júri qualquer, as delações juramentadas e vazadas, uma prisão, uma prescrição de crime, uma pesquisa de opinião, vinham as enxurradas de opiniões e argumentações. Quase tudo permeado por sarcasmo e ironia. Tudo inócuo, tudo controlado e mediado pela força dos robôs.

A Tuiuti foi um ato orgânico de desobediência civil. Em vez de reagir a um acontecimento, ela FOI o acontecimento. Não sublimou os fatos, ela os sequestrou para si.

Afrontou o poder de um uníssono midiático. Identificou cúmplices involuntários e voluntários desse uníssono no próprio povo do qual faz parte, aceitando a satanização que (sabia) viria a seguir.

Ao amarrar as duas pontas da escravidão, com raro talento dramatúrgico, encenou a tese dos best-sellers de Jessé de Souza, para quem são indissociáveis a figura do senhor de escravos daquela do bacana que entra na areia da praia, no Litoral Norte, com um carrinho de bebê ladeado por duas babás de uniforme (ou do mentecapto que lava os pés com Veuve Clicquot no Jurerê).

Em plena avenida das transgressões sazonais admitidas, a Escola insurgiu-se contra um golpe de Estado de peito aberto. Afastou a generalidade, foi ao particular, ao ponto preciso. Ao fazer isso, reagrupou a fogueira de vaidade das forças democráticas em torno de uma unanimidade, pela primeira vez em dois anos.

A cobertura jornalística ordinária não tem como dar conta da dimensão do acontecimento que foi o desfile, porque não se trata simplesmente de um único acontecimento. São vários. Tentei falar com o carnavalesco, Jack Vasconcelos, porque achava que alguns pontos ele poderia esclarecer. “Jack não quer falar. Está muito chateado com o que anda saindo na imprensa”. Na verdade, isso é uma dedução minha, mas falta ainda sair o essencial.

É de uma profunda imbecilidade achar que a política é maior do que a cultura (ou que a contém, mas não o contrário). O problema é que, na prática, não se desafiam essas compartimentações. Concordamos, jornalistas, acadêmicos, ensaístas, ativistas, que é preciso rotular as coisas. As compartimentações regem a vida cotidiana, todo o resto seria ponto fora da curva. Mas a Tuiuti desentortou a curva. Dentro do território do simbólico, a escola devolveu a política ao povo. O seu lugar de origem. Não é pouca coisa.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

DUAS CORONAS NA MÃO, UMA NO BOLSO




o guitarrista inglês jack broadbent em seu show de estreia no Brasil, ontem, no bourbon street

(fotos de juvenal pereira)



Vendo Jack Broadbent tocar, na noite passada, no Bourbon Street Music Club, me ocorreu uma ideia antinatural, a de que a tecnologia não tem como vencer. Senti uma sensação juvenil de conforto. Porque a tecnologia pode forjar combinações inimagináveis, pode juntar as bases do Inferno com as do Paraíso, pode exumar a voz de Elvis e Nat King Cole e fazer Lady Gaga parecer k.d.lang, mas não pode traficar a pureza, a imprevisibilidade e a volúpia de Jack.

Jack entrou em cena com três garrafas de cerveja mexicana Corona, duas na mão esquerda e uma no bolso direito da calça. Na mão direita, a guitarra e o cantil de uísque que usa para fazer slide sobre as cordas do instrumento. Bebeu todas as três cervejas durante o show.

Jack é um britânico tímido, então usa umas “muletas” de gags como amálgama do show, costurando uma espécie de deboche quase mastigado entre as canções. Tipo assim: “Vocês estão se divertindo? Não deviam, isso é blues...”.

Ele abriu com uma canção própria, On the Road Again, do seu disco Along the Trail of Tears, de 2015. A forma como ele desliza o cantil de uísque por cima das cordas, arrancando pele dos dedos ao dedilhar a guitarra, é um tipo de sacrifício físico que não faz mais parte do léxico do showbiz. Jack dá o sangue, literalmente.

Após tocar Wind Cries Mary, de Jimi Hendrix, canção do Jimi Hendrix Experience, de 1967, Jack disse sorrindo: “Jimi Hendrix. O melhor”. Alguém berrou Rory Gallagher na plateia. Jack disse que adorava o guitarrista irlandês, e que seu pai tinha tocado com Gallagher. Foi além: contou que o irlandês só tinha um problema: bebia muito (dizia isso enquanto fazia “sniffs” com o nariz no cantil).

Outro espectador pediu para ele tocar Little Wing e ele abriu mais a risada. “É uma só de Jimi Hendrix. O resto é minha própria porcaria”.

Mas não era só dele e definitivamente não tinha porcaria ali. Ele ofereceu uma linha evolutiva do blues e do folk na sua estreia no Brasil. Tocou Leavin’ Blues, de Leadbelly, o avô da música folk, uma canção de 1940. Depois, viajou para a urbanidade e mandou Moondance, do irlandês Van Morrison, canção de 1970.

“Essa foi para o meu pai. Mick Broadbent. Um baixista fodido”, disse Jack, após tocar Willin’, da banda Little Feat. Esse grupo setentista, Little Feat, foi liderado pelo guitarrista Lowell George (a música, reza a lenda, foi o motivo de George ter sido demitido da banda de Frank Zappa, Mothers of Invention, porque a canção falava de drogas, “weed, whites and wine). Durante a gravação original de Willin’, Lowell George machucou a mão e não pode fazer o slide, então chamaram Ry Cooder para tocar no disco, que é de 1971. Então, vocês podem imaginar o que foi um ex-busker como Jack enfrentando à frente de uma plateia de iniciados um slide guitar que já teve Ry Cooder dichavando. E saindo dele aplaudido entusiasticamente - nada mal para quem disse que teve medo de chegar aqui e só encontrar cinco pessoas na audiência.

O visual “stoned” de Jack, magrelo e barbado como um dos Freak Brothers, era referendado pelas brincadeiras. Usando uma caixa acústica como banquinho, ele provocou a plateia, indagando se não havia nada que quisessem saber a respeito dele. Um gajo devolveu: “O que tem no seu cantil?”. Jack deu sua risada soluçante de novo e respondeu: “Cocaína”. Alguém o convidou para ir à sua casa depois do show e ele disse: “Se tiver maconha eu vou”.

Depois, quase perto do bis, Jack tocou Hit the Road Jack, de Percy Mayfield, de 1960, talvez o maior sucesso de Ray Charles. “Soube que Ray Charles cantou aqui”, disse. Sim, cantou. Exatamente no mesmo lugar onde ele tocava, há 23 anos.

Após uma hora de show, Jack começou a olhar para o relógio. Fez isso umas três vezes, rindo. Depois, arrancou o relógio e jogou no fundo do palco, perto do violão. Perguntou se já era Carnaval e festejou: “Amanhã estarei no Rio. Assustado”, brincou. Ele toca esta noite e amanhã no Blue Note carioca e não é de perder.

Jack tocou uma canção inédita, If, que estará no seu novo disco, gravado em Nashville, no Tennessee, com produção do tecladista do Lynyrd Skynyrd, Peter Keys. Mostrou um falseto admirável numa balada linda, Too Late. Alternava violência nos arremates do cantil de uísque contra as cordas da guitarra e um dedilhado preciosista no violão.

No início da tarde, Jack Broadbent veio caminhando do seu hotel na Avenida Ibirapuera até o Bourbon para passar o som e terminou a noite abraçado com os fãs no centro do clube, ao lado da guitarra Lucille, doada por B.B.King. O blues dominava a noite novamente.




terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PANTERA NEGRA





PORQUE PANTERA NEGRA É UM FILME MEIA BOCA


Se alguém lhe disser que Pantera Negra é um filme político, pergunte:Qual é a lição política do filme? Difícil que consiga responder. Algumas possibilidades: é político porque mostra que nações poderosas têm a obrigação de doar para instituições de caridade dos desvalidos? Países da África bons são os países da África que têm dinheiro? Os outros são passíveis de doações e caridade e não têm contribuição a dar? Nações poderosas não podem vender armas ultraletais no mercado porque é prudente guardá-las para si? 

No filme, a grande esperança negra que é Wakanda (a potência africana secreta na qual o Pantera Negra é rei) detém alta tecnologia, alto conteúdo ético, alto debate de responsabilidades, tem representação na ONU, mas depende que um bem-intencionado agente da CIA (?) presencie suas boas intenções para reportar isso ao Grande Irmão Branco do Norte. Um dos dois únicos brancos da história tem a função de testemunhar que, sim, aqueles são bons pretos. Pior: sem ninguém que saiba pilotar um avião, Wakanda recorre justamente ao agente da CIA para detonar mísseis no ar, heroicamente. Se estou errado, digam-me: qual é exatamente o papel de Everett Ross (Martin Freeman) na trama toda?

Os furos do roteiro são muitos. Pantera Negra dispõe de uma poção ancestral que o faz “domar” um carro em alta velocidade, apanhá-lo pelos “chifres” e derrubá-lo como a um bezerro no rodeio, só que no asfalto. Mas quando ele usa essa mesma poção ancestral para enfrentar o vilão do filme, Killmonger, que não dispõe de poção alguma, ele leva uma surra. Aí, a mesma poção o “ressuscita” do mundo dos mortos e ele retorna ao combate e derrota o vilão. Explique essa.

É bonita a cachoeira de Foz do Iguaçu do filme? Olha, a cerimônia de coroação dá pinta de audiência de programa de auditório na TV. A África pode evoluir séculos à frente, mas na ficção de Hollywood sempre vai ter uma luta de tanga numa cachoeira com tambores e um homem-gorila desafiando a hereditariedade do Tarzan of the Apes do momento.

Filmes de super-heróis dependem de verossimilhança, algum senso de credibilidade. Claro que as grandes mirabolâncias fazem parte da trama, mas elas só fazem sentido se todo o resto ficar em pé. Se o heroi, com suas garras, transforma uma Mercedes sedã em conversível em 3 segundos, como é que ele berra de dor só com um arranhão de uma lança? Pantera Negra é fraco, embora divertido em alguns momentos. Mas um filme não se sustenta só com algumas gags e boa música. A principal batalha, com os rinocerontes marombados no meio, é risível.

Quanto à associação com o partido dos Panteras Negras, o filme é meio desleal. A citação é evidente em vários momentos, mas o verdadeiro Pantera Negra é o vilão, Killmonger. Sua sede de vingança precisa ser punida, não tem como prosperar. O filme só vê política na anuência, na concordância, na aceitação dos desígnios da geopolítica internacional.

Aceitando-se a tese de que é uma metáfora da entronização de Obama e sua família (Lupita seria Michelle, ativista por fora), é ainda mais chapa-branca. Equivale a um habeas corpus para Obama.


Vejam bem: essa é só UMA opinião, a minha opinião. Não ajam como doidos. Podem ficar com a outra opinião tranquilamente.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

HIT THE ROAD, JACK!












Há uns 4 anos, Jack Broadbent tocava nas ruas de Amsterdã. Era um busker, um músico de rua. Faz slide guitar usando um cantil de uísque sobre as cordas do instrumento. Pelas artes e maravilhas da tecnologia, um vídeo seu tocando na rua viralizou e, no ano passado, Jack já abria shows para o lendário southern rock da banda americana Lynyrd Skynyrd. Foi apresentado, no Montreaux Jazz Festival, como “o novo mestre do slide guitar”. Agora, pela primeira vez, ele desembarca no Brasil para um show no Bourbon Street (eleita na semana passada uma das 100 melhores casas do ramo do mundo pela prestigiosa publicação Down Beat). Será no dia 8 próximo, quinta-feira, 22h30, na Rua dos Chanés, 127 (ingressos a R$ 75 e R$ 95). Broadbent concedeu a seguinte entrevista ao blog:






Por que o blues? Por que o slide guitar? Qual é o lance?

O jeito como cheguei ao slide guitar usando o cantil de uísque foi quase por acidente. Eu tava tocando em um pub e o dono do pub subiu do porão com uma caixa cheia de cantis de uísque. Olhei pra o cantil e pensei: "vou experimentar!”. Fiquei instantaneamente conectado, aquilo me deu liberdade para tocar com um estilo diferente e a energia era arrepiante. O blues é um sentimento, eu fui de fato influenciado por músicos antigos, dos anos 1920, 1930, até os anos 1950. Há um coração e uma verdade nessa música que é duro de descrever, mas fala ao meu coração num nível emocional. Creio que o blues, como nenhum outro gênero, tem essa conexão emocional.

Aqui no Brasil, Milton Nascimento costuma cantar “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Você concorda?

Já se passaram muitos anos desde que eu toquei nas ruas, mas eu acho que Milton Nascimento está absolutamente certo, porque eu aprendi muito tocando nas ruas. O fato de você não ter um público cativo quando está nas calçadas faz com que você tenha que trabalhar ainda mais duro para atrair a atenção das pessoas e desenvolver um senso de espetáculo que seja distinto, um estilo. Eu me diverti muito tocando nas ruas e encontrei muita gente maravilhosa. Sinto falta às vezes, mas recomendo a todos que estejam começando. Mas hoje sou muito grato por ter um telhado sobre a cabeça, que me mantém abrigado do mau tempo. Hahahahahaha.

Abrir shows de Peter Frampton e Lynyrd Skynyrd era algo que estivesse em seus planos?

Acredite ou não, eu não era muito familiarizado com Lynyrd Skynyrd ou Peter Frampton antes que me fosse oferecida essa oportunidade de abrir shows deles. Mas eu rapidamente me tornei fã da banda.Também, tocar na frente de 10 mil, 15 mil pessoas por noite era algo que eu nunca tinha experimentado antes. Eu fiquei apaixonado por aquelas audiências massivas. Também fiz grandes amigos durante as turnês e estou gravando um álbum de rock, blues e folk music com Peter Keys, tecladista do Lynyrd Skynyrd, em um estúdio de Nashville. Em termos de influência, ouvi muito Little Feat, Steely Dan, Joni Mitchell e, é claro, Neil Young.

Muitos críticos veem o blues como uma forma de arte conservadora, sem grande evolução. Como vê essa afirmação?


Acho que, na verdade, o blues é um gênero que está sempre mudando, até o ponto em que o termo “blues” se tornou algo meio vago. Eu chamo a mim mesmo de bluesman, mas eu não toco realmente o blues de 12 compassos, sou mais do som do Delta, um artista das raízes e do folk com um coração do blues. Acho que é importante se manter tentando coisas novas. Neil Young é uma inspiração para mim no sentido de que ele segue fazendo uma música que desafia os gêneros. As pessoas falam em manter o blues vivo e eu acho que, se o blues está sendo relevante para as próximas relações, é porque ele se mantém aberto à inovação e o crescimento.



domingo, 7 de janeiro de 2018

DINOS




Tinha o cabelo, um conjunto de tufos acajus já mais pro amarelo, penteado ao meio. Corrente de ouro no pulso e outra no peito. Imaginei que possuísse um pente Flexa Carioca no bolso traseiro da calça, essa talvez de tergal.

Subia a serra com seu Monza.

Emparelhei duas vezes com ele pq o meu Ford Ka também não imprimia velocidade suficiente ao atrito do asfalto.

Camisa de voil. Havia um macaquinho mug de pelúcia balançando no retrovisor. A patroa ia sentada no banco do passageiro sem pronunciar palavra.

Pensei aqui com meus botões que aquele era um tipo de homem em franco processo de extinção. Quis fotografá-lo, talvez acenar, mas desisti.

Com grande esforço, esses homens se habituaram ao WhatsApp no celular, ao caixa eletrônico, ao pedágio Sem Parar, ao aplicativo de Zona Azul, à propaganda e aos fogos de artifício virtuais do futebol na TV. Mas eu sinceramente os vejo em franca desaparição. Não terão saco para a realidade virtual da Magic Leap.

Em Curitiba, meu chefe no departamento de pessoal da construtora, em 1980, tinha letra bonita e língua presa. Ele pagava a quadra de futebol society com cheque e ia embora de calção Adidas de índio com a capanga de couro sob o braço, sempre me lembro disso. Nunca suava a camisa do jogo. Todos éramos como filhos para ele, o paternalismo o projetava como uma autoridade natural.

Conheci esses homens em seu auge, nos anos 1970. Trabalhei para um relojoeiro e um contador que chegavam ao trabalho com capangas de couro sob o braço. Tomavam drinques de Vermute no bar, sempre sozinhos. Conservadores e de poucos sorrisos, tinham o carro como o centro de sua vida social. Passaram dos fuscas para o Corcel, depois os Chevettes e os Opalas Comodoro e os Monzas. 

Boa parte deles parou por aí, como se tivesse chegado a um processo de criogenização do status - aquele que subia a Serra do Mar era um desses.

Laudelino, que jogava bola conosco em 1979 e chamava a si mesmo de “Kempes” quando fazia algum gol, será que ainda está lá no Noroeste do Paraná?

Evandro Mesquita, em A Grande Família, me lembrava muito daqueles caras - provavelmente porque o próprio Evandro é mesmo um deles. Agostinho (Pedro Cardoso), certamente tinha muito deles, mas como era demasiadamente produzido pelas figurinistas, nem sempre tinha credibilidade. Javier Bardem no filme dos Irmãos Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez, tinha um componente muito evidente desses caras que encontro menos hoje em dia.

Eu vejo o Tite comemorando gol com calça skinny e sei que não é ele quem está naquelas pernas comprimidas dentro das calças. Vejo o Renato Gaúcho de gravata e camisa para fora das calças e sei o que aconteceu. Ele mesmo contou o que aconteceu: a filha. “Nunca mais vou repetir isso”, jurou. São as filhas do Dunga tentando embalar todos esses homens de um tempo perdido em papel vegetal.


Se você chegou até aqui esperando pelo desfecho, esqueça: essa divagação não tem nenhum propósito. A extinção tem um escalonamento inevitável e minha geração de camiseta branca da Hering já está fazendo fila. Mas o bacana mesmo é esse período em que ficamos habitando um limbo, como os degredados da Zona Fantasma de Krypton.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CONEY ISLAND BABY







Como obsessivo jazzista que é, Woody Allen trabalha no cinema várias vezes o mesmo fraseado de clarineta, com possibilidades infinitas.

Assim, o desmanche progressivo de Ginny (Kate Winslet) em Roda Gigante, seu novo filme, remete diretamente ao derretimento nervoso de Cate Blanchett em Blue Jasmine.

Carolina (Juno Temple), a ex-mulher de gângster que é uma verdadeira lótus florescida na lama, é uma variação sobre o tema de Mira Sorvino em Poderosa Afrodite, a prostituta ética e pura.

“Então somos nós mesmos que decidimos nossas tragédias?”, pergunta Ginny ao guarda-vidas Mickey (Justin Timberlake). Não, há também outros fatores comandando, como o destino, responde Mickey.

É nessa questão que se equilibra Roda Gigante (Wonder Wheel) - o quanto arbitramos de nosso em uma vida operosa, modesta, sequestrada pela louça suja, pelo peixe a ser frito antes de apodrecer, pelo hábito de ver o futebol da Taça São Paulo, de rir sempre das mesmas piadas.

A tragédia ronda o parque de diversões de Coney Island, em algum ponto dos anos 1950. A praia cheia, o boné antigo do bilheteiro, os maiôs, os marines. Em dado momento, o freak show do parque de diversões de Woody até me lembrou Diomedes, de Lourenço Mutarelli.

O garoto piromaníaco, filho de Ginny: é impossível deixar de amar o garoto incendiário que taca fogo na escola, no condomínio e até na psicanálise. E o jeito carinhoso como Humpty (Jim Belushi) acaricia as notas de um dólar na caixinha do seu carrossel. E o olhar turvo de Mickey ao se dar conta de sua própria tragédia - ao final, o guarda-vidas que ama Eugene O’Neill perde as duas vidas que lhe são efetivamente confiadas.

Eu amei o filme. Sei que Woody Allen sempre vai preferir ragtime, jazz da primeira metade do século 20 na sua trilha fascinante. Mas eu teria mudado uma coisinha: eu teria terminado o filme com Coney Island Baby, de Lou Reed. Não teria a menor dúvida:




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ABRINDO OS TRABALHOS 2018





SHOWS DO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2018


12 de Janeiro
Benito di Paula
Sesc Ipiranga

13 de janeiro
Enquanto houver algum modo de dizer não, eu canto
Com Taciana Barros, Karina Buhr, Ana Cañas, Martha Nowill
Sesc  24 de Maio

13 e 14 de janeiro
Maglore
CCSP

20 de janeiro
Mauricio Pereira e Tonho Penhasco
Teatro da Rotina

3 de fevereiro
Beto Barbosa
Tropical Butantã

4 de fevereiro
One Drop Festival
Talib Kweli, Beautiful Girls e outros
Via Matarazzo

24 de fevereiro
Phil Colins
Allianz Park

James Blunt
Tom Brasil

27 de fevereiro
Foo Fighters
Queens of the Stone Age
Allianz Park

Primal Scream
Tropical Butantã

3 de março
Marcos Valle, Azymuth, Four Tet e Modeselektor
Playcenter

12 de março
Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Orquestra Buena Vista
Tom Brasil

16 de março
Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo
Espaço das Américas

17 de março
Bebe Rexha
Katy Perry
Allianz Park

23, 24 e 25de março
Lollapalooza 2018
Pearl Jam, The National, The Killers, Red Hot, Imagine Dragons e Lana del Rey, Spoon, Mac DeMarco, Chance The Rapper, Liam Gallagher, Royal Blood, LCD Soundystem, David Byrne, Metronomy, etc
Autódromo de Interlagos

27 de março
Depeche Mode
Allianz Park

Eddie Vedder
Citibank Hall

22 de abril
Soundhearts festival
Radiohead, Flying Lotus, Aldo The Band e Junun
Allianz Park

3 de maio
Saxon
Tropical Butantã

13 de maio
Ozzy Osbourne
Allianz Park

29 de maio
Harry Styles
Espaço das Américas

12 de junho
Stacey Kent

Sala São Paulo