sexta-feira, 12 de agosto de 2016

OLHAR




Virgine foi casada com um diplomata francês durante anos. Por conta da vida em movimento, de País em País, eles carregavam malas de aço - para que as coisas mais íntimas e os objetos mais queridos permanecessem seguros. Mal dava tempo para reacomodar tudo nas novas casas. Um dia, quando foram morar em Madagascar, Virginie foi abrindo as malas. “Tinha um ventilador de corpo de plástico. Na hora em que eu o apalpei, quebrou inteirinho. Aí abri outra mala e estava lá, intacta, a roupa que usei no primeiro show do grupo A Gota Suspensa. A saia de borracha, os vídeos, as fitas cassete, tudo inteirinho”, ela conta.

Estamos no café Le Pain Quotidien da Wisard. Eu, a cantora Virginie Boutaud e o tecladista Yann Laouenan. Logo chega Dany Roland, o baterista (faltaram o baixista Xavier Leblanc e o guitarrista Alec Haiat). Há 30 anos, eles contam, os ônibus de turnê em que viajavam como o grupo Metrô (a Gota Suspensa era o embrião da banda, em 1978) viviam cercados de fãs, era até difícil a locomoção, uma loucura. Tão louco que eles acabaram com a banda no ano seguinte.

Eles estão relançando, remasterizado, o disco Olhar, de 1985, acrescido de um disco ao vivo (da mesma turnê, de 1985) e faixas bônus. É um dos raros álbuns lançados no Brasil, no último século, em que quase todas as canções se tornaram hits radiofônicos: Johnny Love, Beat Acelerado, Tudo Pode Mudar, Sândalo de Dândi, Olhar, Ti Ti Ti, Cenas Obscenas. Mais impressionante ainda: até hoje, 31 anos depois, essas canções ainda tocam o tempo todo no dial do rádio do carro, basta testar - dificilmente vai passar uma hora sem uma delas.

O relançamento se dará com um show em que todas as canções serão tocadas na ordem em que estão dispostas no disco. Será esta noite, no espaço Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré, ao lado da Estação Sumaré do Metrô). Os ingressos custam R$ 50 (R$ 25 meia). O comeback do grupo Metrô já tem um tempinho, eles tocaram no Palco Arouche da Virada Cultural e foi envolvente, apesar de probleminhas técnicos. Agora, é um tour de force em torno de sua obra-chave.

A história desse disco é cheia de lances cinematográficos. Recentemente, Danny estava no aeroporto esperando voo para o Rio, onde vive, quando foi abordado pelo executivo português Paulo Junqueiro, novo presidente da Sony Music Brasil. Junqueiro, em 1985, chegara ao Brasil para trabalhar na indústria musical e caiu no Estúdio Transamérica. O primeiro trabalho que lhe deram foi acompanhar uma turnê da banda Metrô como técnico de som. Ele gravou toda a turnê do disco Olhar (que passou por Recife, Cruzeiro, Jaú, Tupã, Cornélio Procópio e dezenas de cidades), e manteve as fitas durante 31 anos em uma gaveta em sua casa, em Lisboa.

Junqueiro repatriou as fitas, Luiz Carlos Maluly (o produtor de Olhar, em 1985) as recuperou, e elas são do disco 2 do pacote lançado agora pela Sony (que era CBS na época em que gravaram).
Em 1985 e 1986, saíram alguns dos mais importantes discos do rock brasileiro daquela década, como Selvagem?, dos Paralamas, Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e Dois, da Legião Urbana. As bandas mais pop, como o Metrô, Kid Abelha e Sempre Livre, eram frequentemente alvo de chacota e desprezo. 
Havia muito preconceito da crítica - embora todos frequentassem o mesmo circulo, houve até jantar na casa de Fernando Zarif em que odiadores e odiados dividiram a mesma mesa, pacificamente. 
E acabo de descobrir que não foi só repulsa, muita gente gostava - como o Silvio Essinger, que os entrevistou hoje para O Globo. Ele escreveu no Face: "Um grupo me proporcionou duas descobertas na mais tenra idade: a da alegria new wave (com o LP Olhar) e, depois, a da beleza e do inusitado (com o disco A Mão de Mao; quem não ouviu, procure já). Era o Metrô, muito mais do que uma nota de rodapé na história do rock brasileiro, com suas canções, letras e timbres invulgares. Uma honra tê-los entrevistado - espero ter feito alguma Justiça a esses grandes artistas",

O pioneirismo dos sintetizadores de Yann e a voz pequena e bem colocada de Virginie fizeram escola, entretanto, embora eles tenham enveredado por outros rumos  - há muito de Metrô no Pato Fu e no Cansei de Ser Sexy, ela reconhece.

Curioso é que eles não ganharam muito dinheiro com o disco. Havia muito desvio no caminho, os direitos não eram bem-recebidos e também a estrutura de suas turnês era muito cara, com 23 pessoas na equipe, ônibus, caminhão, aparelhagem cara. Sobrou pouca coisa, não se tornaram milionários do rock. Mas há ainda uma legião de fãs - Virginie carrega uma sacola cheia de envelopes de Sedex que vai despachar para os fãs que lhe pedem o disco pelas redes sociais.


O papo com a banda Metrô (e um pouco do disco ao vivo inéidto) eu coloco mais para a frente aqui. Hoje, posto só esse aperitivo para dar um alô para o show.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

CHINA MOSES


UMA CANTORA EM BUSCA DA PRÓPRIA VOZ



Há 19 anos, a cantora e atriz Dee Dee Bridgewater fez o seu primeiro show no Brasil, no palco do Bourbon Street Music Club, durante o antigo Free Jazz Festival. Homenageou Ella Fitzgerald e mostrou porque era, àquela altura, uma das divas do jazz mais badaladas do mundo.

Na noite desta terça, sua filha China Moses, que tinha 17 anos na época daquele show, sobe ao palco do mesmo Bourbon Street com um objetivo: livrar-se do peso dos standards do jazz e da influência das divas como Billie Holiday e Dinah Washington e enfim mostrar a sua própria voz musical.

China Moses desenvolveu sua habilidade sob a égide de duas poderosas heranças artísticas. Filha de Dee Dee, hoje com 66 anos, e do diretor Gilbert Moses (já morto, ativista afroamericano que ganhou o prêmio Tony de teatro com Ain’t Suppose to Die a Natural Death e dirigiu do musical 1600 Pensylvannia Avenue, de Leonard Bernstein), ela nasceu em Los Angeles e cresceu em Paris.

“Nos últimos 10 anos, eu descobri o legado do jazz e fiz um disco em tributo a Dinah Washington. Cantei todos os standards e enveredei pelo caminho dos festivais de jazz. Isso foi importante para descobrir minha identidade. O jazz me deu coragem para finalmente ser eu mesma”, disse China por telefone, em entrevista desde sua casa Paris, numa declaração que parece paradoxal. “Eu fiquei frustrada com o mundo do jazz. Sentia que precisava de mais liberdade, de fazer algo que fosse menos a expectativa que os outros têm de mim e mais minha própria cara”.

Assim, ela explica, foi que conheceu o produtor britânico Anthony Marshall (de artistas como o rapper Craig David) e, em 5 dias, compôs os temas de Whatever, seu novo disco (selo MadeinChina, dela mesma). Em outros 6 dias, produziu as 11 canções do álbum no Snap Studios de Londres, com um trio. “Eu sempre fui mais próxima do R&B, do soul, do funk, do pop. Amo o jazz, mas minha vida se desenvolveu ao redor da música que eu tenho vontade de dançar às 5 horas da manhã numa pista de dança. Aquele repertório que eu estava levando era muito delicado, mas não era a minha voz”.

Por conta disso, quando pergunto se ela pretende cantar ao menos uma música do repertório de Dinah Washington ou Billie nessa noite de terça, em sua estreia no Brasil, ela é curta e a gargalhada sai torrencial. “De jeito nenhum”, sentencia. Esses standards estão registrados em discos como Good Lovin (2004), This one is for Dinah (2009) e Crazy Blues (2012). Ela também acompanhou a mãe em um tributo a Lady Day - mas, muito antes de tudo, chegou a cantar heavy metal.

“Eu parei e pensei: o que me leva a fazer o que faço? Não é a plateia, não é o programa de um festival, é aquilo que eu penso sobre a arte e a música. Não estou reclamando de nada, mas não se pode ser feliz tentando fazer o que os outros querem de você. Ao mesmo tempo, o jazz é parte de mim, de minhas influências. É possível ser algo entre uma coisa e outra, isso aconteceu com cantoras como Natalie Cole e Peggy Lee. Por que eu tenho que escolher? Na minha cabeça, estou tentando construir uma ponte entre esses gêneros, ao mesmo tempo em que defino meu próprio ritmo e velocidade. É como cozinhar: é muito importante criar o seu próprio sabor, encontrar os ingredientes certos, as cores de sua comida. Estou procurando por isso”, pondera.

A mãe de China, Dee Dee Bridgewater, foi quem a fez querer ser artista, ela conta. “É tão talentosa. Tive sorte de ter uma artista mulher para me inspirar. Foi minha primeira fã, me encorajou, me estimulou. Ela me ensinou a importância do amor dos pais: uma mãe que ama seus filhos pode mudar o mundo. Ela vê através da arte, não é só uma artista, é uma mulher e ativista, é cheia de convicção e verdade. Ela só escolhe projetos muito fortes e importantes, não se vende nunca”, afirma a cantora.
Dee Dee disse que China deveria seguir o caminho que lhe desse felicidade, e não o caminho da obrigação. Por conta disso, bossa nova, por exemplo (gênero caro a colegas como Stacey Kent ), nunca a tocou especialmente, embora conheça bastante. “Eu sempre ouvi. Uma de minhas preferidas era Astrud Gilberto. Ouvi e fiquei com a voz dela muito antes de Tom Jobim, João Gilberto. A versão dela de Águas de Março é a minha preferida. Em meu segundo disco, uma das primeiras canções é uma bossa. Mas a bossa nova pede uma abordagem mais delicada do que a que eu posso dar, e tem muita gente que pode. Gosto do jeito que Seu Jorge toca a bossa, um jeito mais nervoso. Gosto de artistas que vão além do estabelecido”, ela diz.  

Garota parisense típica, embora norte-americana, ela comentou também os casos de violência terrorista recente em Paris e Nice. “Acredito que os ataques na França queriam atingir justamente aquela parte da cultura, da liberdade de pensamento, da livre expressão que a arte atingiu no País em todos esses séculos. Foi a mais feia, impensável atrocidade. Curioso que um ataque desse tipo aconteça justo no momento em que vivemos um fluxo de comunicação tão intenso. Hoje nós podemos compartilhar a vida com outras pessoas, falar com o mundo todo, muito mais do que na minha adolescência. Os artistas estão ainda muito calados em relação a isso, mas acredito que devem se levantar logo. Eles representam os sentimentos das pessoas e devem liderar uma reação. Acredito que está chegando”.




CHINA MOSES

Local: Bourbon Street | Rua Dos Chanés, 127 – Moema – SP
Bilheteria Bourbon Street: Rua dos Chanés 194 – de 2ªf.a 6ª.f das 9h às 20h, sábado e feriado das 14h às 20h
Fone para reserva: (11) 5095-6100 (Seg. a sexta) das 10h às 18h
Data : 09/08/2016 – terça-feira
Horário: 21h30
Abertura da casa: 20h
Duração: 98 min. aproximadamente

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

12 DIAS EXTINTO




O ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, escreveu artigo em O Globo no último dia 31. Eu li hoje.

Faz inicialmente um balanço pestilento da pasta, até aí normal. Então ele escreve: “Ao chegarmos ao MinC, apresentamos esse cenário caótico ao presidente Temer que, imediatamente, se sensibilizou”.

Vejo que, com frequência, os políticos apostam na memória curta dos cidadãos. Mas ainda não tinha visto apostarem em uma memória tão curta. Senão, vejamos: Calero não chegou ao MinC, o ministério tinha sido extinto. Ficou 12 dias desativado em maio (um desperdício de R$ 13 milhões), o que talvez demonstre o assombroso nível de “imediata” sensibilidade que o vice-presidente em exercício nutre pelo setor. O ministério só foi recriado por conta da massiva manifestação de artistas de todo o País, um espectro que envolveu de Fernanda Montenegro a Caetano Veloso, passando por  Erasmo Carlos (figura que, tradicionalmente, não se envolve em política). Manifestações pacíficas envolveram milhares de artistas e produtores.

Calero chegou todo sorridente, indicado pelo olímpico prefeito Eduardo Paes, a alguma coisa que àquela altura substituiria o MinC, uma secretaria de segundo escalão. Mas ele tampouco foi uma escolha prioritária: 6 mulheres, antes dele, foram convidadas para o cargo e polidamente recusaram, considerando que houvera negligência do atual governo em relação à presença das mulheres no primeiro escalão e que não preencheriam uma cota por mero oportunismo publicitário.

Primordialmente, o que distingue Calero das gestões que o precederam é, até agora, uma característica evidente: ele não saiu do gabinete a não ser para uma extemporânea visita à Turquia - curiosamente, em dia de cabalístico golpe de Estado. Não recebe, não se reúne e nem participa de fóruns públicos de artistas, parece não ter uma agenda externa e demonstra certa alergia ao debate público. Circula em ambientes controlados.

“Queremos dialogar com todos os segmentos, dos que se dedicam ao fazimento cultural local até a indústria de ponta”, escreveu o mesmo sujeito que promoveu uma violenta reintegração de posse no Palácio Gustavo Capanema (foto acima), soltando a polícia em cima de uma intervenção artístico-ativista que ele mesmo tinha elogiado como criativa e vigorosa.

Não é possível distinguir, nos textos e entrevistas de Calero até o momento, algum insight de formulação de política cultural. No MinC, tem se dedicado a alguma espécie de exorcismo político. Demitiu todo mundo na Cinemateca Brasileira, mas recuou dias depois após ser revelado que o nome que escolhera para dirigi-la tinha um histórico de estelionato. Demitiu 88 pessoas no ministério, acusando “aparelhamento” - e parece que boa parte estava lá havia mais de 15 anos. Nem precisava da justificativa política, já que algumas secretarias ele nem ativou em três meses de trabalho, caso da SPOA (Planejamento, Orçamento e Administração). Outras áreas ele dinamitou, como a do Livro e Leitura.

Outra coisa que certamente o diferencia é que agora tem dinheiro. As verbas que não chegavam nunca finalmente chegaram até ele. Curioso, já que o Ministério da Cultura estava extinto justamente para economizar e tornar o Estado mais enxuto, menos dispendioso. Era supérfluo, subitamente tornou-se opulento (assim como o que era defeito subitamente virou qualidade na política econômica).

A situação política é tensa, há uma evidente crise de autoridade no País, as instituições estão em frangalhos, parecem tuteladas por um sombrio pacto de varrição para debaixo do tapete. Mas as pessoas têm que seguir a vida. Os produtores culturais que têm um relacionamento mais estreito com o Estado precisam manter contato com o MinC de Calero. O que assusta é que o atual gestor, com seu farolete burocrático (no afã de “reconfigurar modelos de gestão”) e a vaidade revanchista, demonstra acreditar que não é somente um agente do Estado brasileiro (em última instância um instrumento a serviço do bem-estar da coletividade), mas seu tutor privilegiado e sua própria finalidade.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

CASA DE VIDRO





UMA GRANA PARA A CASA DOS BARDI


Fundação Getty doa R$ 625 mil para eventuais obras de reparos na Casa de Vidro do Morumbi, projetada em 1950 pela arquiteta ítalo-brasileira



A icônica Casa de Vidro da arquiteta Lina Bo Bardi, no Morumbi, recebeu na semana passada da Fundação Getty, de Los Angeles, um auxílio financeiro de U$ 195 mil (cerca de R$ 625 mil) para um “plano de manutenção preventiva baseado em pesquisas técnicas especializadas para evitar um futuro incerto de intervenções de emergência e reparos pontuais”. 

Marco modernista, a casa foi projetada em 1950 e, pela inserção na natureza e na paisagem, é frequentemente comparada à famosa Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright, erguida na Pensilvânia em 1935. Há alguns anos, fiz uma reportagem demonstrando que a casa estava sendo alugada, pela atual diretoria do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, para festas de bacanas, para arrecadar uns trocados. Leia aqui: http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,polemica-cerca-uso-de-casa-dos-bardi-para-festas-em-sao-paulo,1509649

O apoio, pela Fundação Getty, batizado como Keep it Modern, é dado a prédios fundamentais da arquitetura moderna pelo mundo e começou em 2014. Entre as outras obras contempladas este ano, que dividiram US$ 1,2 milhão, estão a Igreja Cristo Obrero (em Atlantida, no Uruguai), a Catedral Metropolitana de Liverpool (Liverpool, Inglaterra), a Villa E-1027 (Côte D’Azur, França), a Primeira Igreja Presbiteriana de Stamford (Connecticut, Estados Unidos), a Biblioteca Infantil de Accra (Gana, África), o Sevan Writers’ Resort (Armênia), o Gautam Sarabhai Workshop Building (Ahmedabad, Índia) e a Biblioteca Nacional de Kosovo (Pristina, Kosovo).

Tombada pelo Condephaat em 1986, por unanimidade, e, em 2007, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Casa de Vidro se junta a duas outras edificações brasileiras já contempladas nessa bolsa de conservação e manutenção de construções modernas no mundo - em 2015, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP, de Vilanova Artigas, e o Pavilhão Arthur Neiva, de Jorge Ferreira, no Rio.

A iniciativa da fundação já direcionou, no passado, fundos para a preservação de obras como o Sanatório Paimio (do finlandês Alvar Aalto), a Casa Eames, o Campus do Salk Institute (Louis Kahn), a Opera de Sydney (Jørn Utzon) e a Casa Schröder (Gerrit Ritveld), entre outros edifícios simbólicos do movimento moderno.

Segundo informou o site ArchDaily, o investimento permitirá que “uma equipe internacional de especialistas em conservação de arquitetura e paisagismo, especialistas em patrimônio  e engenheiros civis e estruturais desenvolvam um plano de gestão de conservação para a obra. O projeto também inclui uma pesquisa topográfica 3D do terreno que permitirá que os engenheiros identifiquem possíveis deformações estruturais nocivas em pequena escala, ainda imperceptíveis aos olhos."

quarta-feira, 27 de julho de 2016

AZAWAD

fotos: Juvenal Pereira


O grupo tuaregue Tinariwen em São Paulo, na Fundação Padre Anchieta, em março




“Um homem-bomba!”, berra a mulher da lanchonete quando passa por Mahfouz no corredor em frente ao estúdio da TV Cultura. Mahfouz, vestindo um glorioso tagelmust (o turbante típico do Saara), a ignora.

Mahfouz Ag Adnane é professor de francês em São Paulo e defendeu mestrado sobre a música do Saara na PUC-SP. Ele veio da Universidade do Cairo há dois anos e é tuaregue, solitário combatente do Azawad aqui no Brasil - o Azawad é a Nação africana reivindicada pelos tuaregues, povo nômade que se espalha pelo território que as invasões coloniais lhes tomaram (entre o Mali, Níger, Argélia, Burkina Faso e Líbia).

Mahfouz está todo paramentado na sede da TV Cultura, desde a véspera acompanhando o grupo de música do Saara que tornou sua tese possível: os conterrâneos do Tinariwen. Está exultante, muito feliz - naquela mesma noite, ele iria subir no palco do Sesc Vila Mariana e dançar com os Tinariwen, agitando a bandeira de sua Nação.

Nos bastidores da gravação, Mahfouz é um autêntico embaixador de sua revolução em torno dos amigos. “Não creio que tenham encontrado muitos tuaregues na América do Sul”, diz Mahfouz. Falam francês e tamachek pelos jardins, com uma reverência uniformizada ao guitarrista e vocalista Ibrahim, de dreadlocks, voz arenosa e passos ultralentos, uma espécie de líder silencioso.  

Esses homens já empunharam rifles AK-47 em sua terra. Têm séculos de escaramuças territoriais e culturais nas costas. Em 2014, prenderam o guitarrista Abdallah Ag Lamida por “tocar a música do demônio”. Já tem 37 anos que o Tinariwen inventou o estilo conhecido como assouf (guitarra), que ganhou o mundo e lhes valeu alcunhas como “Led Zeppelin do deserto”. No Sesc Vila Mariana, quem conhece de música estava na plateia, como os colegas Daniel Benevides e Alexandre Matias. No Rio, o Calbuque foi e escreveu decisivo texto.

O jornal inglês The Guardian anotou que os “filhos do Tinariwen” já se espalham pelo mundo. Como o grupo-matriz, seus nomes geralmente começam com T: Terakaft, Tamikrist, Toumast. Mas há alguns novos que já subvertem a norma: Kel Assouf, Imarhan, Bombino, Mdou Moctar, Ezza.

Eu e o Juvenal Pereira, 30 anos de reportagens juntos, passamos uma tarde com os Tinariwen pela cidade. A ideia era conhecê-los, mais do que reportar algo. Mas acabou que fizemos uma entrevista regular com Eyadou Ag Leche, baixista do Tinariwen. Conversamos no jardim da Fundação Padre Anchieta, enquanto eles esperavam para gravar participação no programa de TV Metrópolis.


Vocês se lembram da última vez que tocaram no Mali?

Eyadou - A última vez que tocamos foi em 2011, durante três dias, no Festival au Désert, em Timbuktu. Hoje é um pouco difícil pra gente tocar lá, por causa dos problemas políticos, não vivemos em paz. Mas não temos muita escolha, é a nossa terra, então temos que continuar a fazer a música, passar a mensagem. A comunicação é importante, porque hoje é tudo mais claro, há um movimento organizado, e mantemos muita concentração em tudo que acontece lá (eles vivem em Tessalit, na região de Kidal, norte do Mali, me conta Ibrahim).

A situação do Tinariwen, como um grupo de tuaregues globalizado, é um pouco mais confortável, porque há muita gente famosa que é admiradora de vocês, como Robert Plant, Josh Klinghoffer, etc. Gente que conhece a sua música. Mas, para os outros grupos, como é a situação hoje?

Eyadou - Eu penso que hoje está mais fácil para todos. Porque já faz 6 anos que partimos pelo mundo, tocando em todos os países possíveis, e abrimos um caminho para os outros grupos, e há muito mais gente que conhece o estilo. Eu acho que está menos difícil.

Há uma mulher que cantou em seu disco mais recente, Live in Paris, Lala Badi, uma voz impressionante. Pode me falar um pouco dela?

Eyadou - Ela é muito conhecida em nossa terra. Ela é tuaregue, é do deserto, muito talentosa, muito tempo de resistência, protege nossa cultura, História, a comunidade, a imigração. Ela vive na Argélia. É uma artista que tem servido muito à nossa causa.

Há muitos festivais ocidentais em que vocês têm tocado, como o Lollapalooza Chicago. Há uma cultura do rock nesses festivais. Como é sua relação com esse mundo indie?

Eyadou - Eu penso que a música de verdade não conhece fronteiras. Também cada artista faz seu caminho de forma particular, com sua marca pessoal. Eu vejo que há muita familiaridade entre o blues rock e a nossa música, muita proximidade. A história do blues começa no Mali, e mesmo hoje nós podemos ver que o blues e a nossa música carregam a mesma dor, o mesmo sentimento. A ligação permanece. A assimilação musical vem da repetição, é o coração dela.

As origens do blues são realmente do Mali, ou não? Ali Farka era muito próximo do blues, fez um disco sobre esse parentesco, Talking Timbuktu, com Ry Cooder.

Eyadou - Mesmo as pessoas que cantam o blues têm sua origem na África. Acho que já há 100% de certeza, os grandes bluesmen são de famílias de escravos, cuja origem era a África, a nossa casa.

O blues é tradicionalmente melancólico. Ele carrega a agonia da escravidão, de certa forma. A sua música também é melancólica. Ela carrega o quê?

Eyadou - O deserto, a excelência do deserto. Há de tudo na nossa música, porque há muita gente que não quer ouvir falar só de política, nem só de amor, nem só de melancolia. E as palavras nem sempre são necessárias. A música serve para que você possa ver melhor a si mesmo.

Os tuaregues são um povo nômade. E agora vocês são nômades duas vezes, vivem na estrada. Essa situação mudou sua música?

Eyadou - Sim. Há uma mudança. Primeiro, por causa de todos os meios de produção novos a que temos acesso hoje. Nós vivemos isolados muitos séculos, infelizmente, então agora nós aceitamos a mudança, é um mundo comunitário, mas nós também afirmamos nossa cultura, nossos princípios, ao mesmo tempo em que alargamos nossa visão.

Como você viu os recentes ataques terroristas em Bruxelas e Paris?

Eyadou - Eu penso que é difícil explicar como isso me toca, como me dói uma notícia como essa, gente que é morta durante um espetáculo, uma parada festiva. São criminosos, não é o islã. Criminosos que criam um problema para os verdadeiros islâmicos, é terrível.

 Mahfouz dança com a bandeira do Azawad no Sesc Vila Mariana



quinta-feira, 14 de julho de 2016

EU ME CHAMO CUMBIA





Um papo por Skype com Totó la Momposina, a Rainha da Cumbia da Colômbia, que chega em outubro ao País com todo seu grupo



Totó La Momposina ajeita a boina de crochê para cá, ajeita para lá, e dá sonoras gargalhadas com as perguntas mais ingênuas. Aos 76 anos, a Rainha da Cumbia, uma das grandes influências da música latino-americana que pouco conhecemos, vem ao Brasil em outubro para o MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda). Ela considera que é sua estreia no País, porque a única vez em que esteve aqui foi com uma trupe gigante, muita gente, e foi “como se estivesse a passeio”.

Totó pertence à quarta geração de uma família dedicada à música da ilha de Mompóx, próxima ao rio Magdalena, na Colômbia (a 248 km de Cartagena de Indias, a porteira do Caribe colombiano). Ali surgiu a cumbia, que se espraiou por quase todo o continente - surgiram depois, com características distintas, a venezuelana, a uruguaia, a salvadorenha, a chilena, a equatoriana, a mexicana, a peruana, a argentina, entre outras.

Mompóx deriva de Mompoj, nome do cacique da tribo Malibu que governou 50 povos naquela região, terra que foi alvo de piratas e da cobiça dos estrangeiros durante sua época colonial. A música de Totó reflete essa diversidade de interesses: combinação de elementos indígenas e africanos, ritmo, enaltecimento da comunhão com a natureza.

Totó (cujo nome real é Sonia Bazanta Vides) é o avesso da artista folclórica tradicional. Formou-se em História da Arte e da Música pela Sorbonne, em Paris. Ali, ela se lembra de ter visto alguns concertos de Mercedes Sosa. “Ela já era uma senhora, mas eu ia aos shows dela sempre que tinha. Ela falava do cotidiano, da memória. A música que faz um povo não está condicionada às regras do marketing”, acentua.

Totó parece ter o peso de um Caymmi para a música caribenha. “O pescador fala com a Lua, fala com a praia”, canta ela, em El Pescador, com certo peso sessentista na percussão, familiar para quem ouvia o som “poncho e conga” da época. “A cumbia é um ritmo ancestral que, em suas origens, tinha a flauta de caña de millo (bambu), gaitas indígenas horizontais características, percussão autóctone. A mistura da música dos escravos negros e dos indígenas é que gestou a cumbia. E havia os bailes, as danças dos índios. Eles se comunicavam com a dança”, ela diz, em entrevista por Skype. E o elemento feminino sempre foi fundamental, explica Totó.  “Os bailes cantados eram animados pelas cantoras, que também eram as que curavam as crianças, faziam o fumo, colhiam o algodão e o arroz”.

Totó la Momposina vem com todo seu grupo ao Brasil, com 14 integrantes. “Não se pode tocar a verdadeira cumbia do Caribe sem todos os instrumentos de sopro, toda a percussão”, argumenta.  Ela conhece, curiosamente, a nova guarda da música brasileira. Fez uma turnê de três meses com a participação de Belô Veloso, e também conheceu Maria Rita.

“Não existe a política sem as artes. As artes são a fortaleza da sociedade. Os romanos, os pretorianos, já tinham os discursos do cônsul Cícero, que defendia as pessoas com as palavras. A música é algo que vem de Deus. Todas as inspirações e os elementos que constituem as artes fazem com que construamos o País que sonhamos. O poder da música no cotidiano é enorme. Quando é uma música verdadeira que sai da canção, sem marketing, é possível mudar o destino. Mas a política tradicional se deixa com os políticos. A arte não tem fronteiras”, ela diz, falando sobre o atual momento político do continente.

“Estive cantando no Chile em plena ditadura, e era um ambiente tenso. Cantamos em todos os lugares, e fomos ao estádio onde executavam adversários políticos. A música, nessa época, tinha a função de manter a esperança acesa. Ela continua sendo depositária de esperanças”, diz a cantora.

“A tecnologia é boa, mas é preciso manter vivo o orgânico, o artesanato. A música é algo ancestral. Suponhamos que haja uma catástrofe e a eletrônica deixe de funcionar. Quem vai tocar? Quem vai fazer os móveis? A comida? Quem vai buscar madeira nos bosques? A música é para a gente um trabalho de carpintaria, é a criação humana, a verdade. Como as fábulas dos irmãos Grimm, que atingem o mundo inteiro”, ela analisa.

Pela primeira vez, o festival MIMO se internacionaliza (depois do Rock in Rio, é o segunda mostra brasileira a se internacionalizar). A partir de amanhã, ocupa a cidade de Amarante, em Portugal, com as seguintes atrações, além de Totó La Momposina: Tom Zé e Vieux Farka Touré, Pat Metheny e Ron Carter e outros.


O calendário MIMO inclui quatro festivais e três circuitos (edições em menor formato). São eles: o MIMO Festival Amarante, Portugal (15 a 17 de julho), Circuito MIMO Tiradentes (7 e 8 de outubro), Circuito MIMO Ouro Preto (8 e 9 de outubro), MIMO Festival Paraty (14 a 16 de outubro), MIMO Festival Rio de Janeiro (11 a 13 de novembro), MIMO Festival Olinda (18 a 20 de novembro).

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A SEITA DA MEMORABILIA NOS ESCOMBROS DO CLUBE

foto meramente ilustrativa




- Corpos que desapareceram sem testemunhas, David Bowie, Michael Jackson e Elvis vivem hoje saudabilíssimos em uma estação espacial na órbita de Plutão. Foram retirados do planeta por um programa da NASA e enviados para lá a partir de uma estação em Sausalito. Eu estive lá, tenho fotos. Parece desativada, parece apenas um silo gigante no meio do deserto, mas há atividade de veículos blindados e pequenas naves na região. O tempo não conta nessa estação espacial, então Bowie é mais velho que Elvis.

O doido contava essa mesma história em todas as sessões da Sociedade Cultores do Pop Extinto, e todo mundo fingia que levava a sério. Era uma espécie de terapia gigantesca para saudosistas de todo tipo, e ocupava um grande saguão do antigo Clube Pinheiros, nas imediações da Faria Lima. Alguém ia até o centro e contava sua história. Após a falência do clube, o local virou um cortição, mas isolaram esse salão, que é usado pela sociedade uma vez por mês. Não há energia elétrica, então é tudo meio lúgubre, iluminado por lampiões de geradores solares.

Eu tinha ido parar ali meio por inércia, não tinha o que fazer e estava aborrecido por conta dos problemas acadêmicos – e agora esse cerco do super-delegado. Os malucos ali me distraíam, me deixavam fora de órbita. De repente, ouvi uma voz que nunca esqueceria.

- Gosto da música brasileira popular por motivos mais diversos do que eu mesmo entendo.
Era uma voz de mulher que eu já tinha ouvido dentro do meu ouvido, uma voz com cheiro de especiarias. Estava no centro da roda de malucos, ela em pé, os outros sentados.

- Gosto do falsete de bode de Raimundo Fagner. Da métrica de soluço de Djavan. Só/sei/vi/ver/se/for/por/vo/cê. Amo o discurso de Homem da Cobra de Zé Ramalho vendendo unguento milagroso de tatu peba na frente do Mosteiro de São Bento.

Françoise. Era a segunda vez que a encontrava, e tinha a impressão que não haveria uma terceira. Ninguém que eu conhecia seria capaz de entrar no coração dessa seita aqui, pedir a palavra e fazer o elogio desses caras que ela menciona – ninguém teria tal coragem. Parecia evidente que ela tinha vindo ali só para tirar um sarro de todo mundo, mas se alguém percebeu, calou-se.

Ela certamente já tinha me visto, é uma águia de percepção e astúcia. Não sei porque tenho essa impressão dela, mas sua autoconfiança no nosso primeiro encontro me permitiu o sentimento. Me esgueirei, saí da réstia de luz.

Eureka! Quando menos pressenti, ela estava no meu cangote.

- Senti sua falta.
- Que bom!, exclamei, com falsa ironia.
- Andei meio derrubada. Fui demitida.
- Sinceramente? Nem sei o que você fazia. Nunca me disse nada.
- Eu trabalhava para um portal de notícias da internet. Quer dizer: notícia quase nada. Reciclava histórias de memórias perdidas, era setorista de memórias recicladas.
- Bom, então não perdeu grande coisa...
- Não é por nada, mas você também parece que vive disso, não?, ela respondeu, já demonstrando certa impaciência.
- Mais ou menos. Tento viver, mas não ganho nada.
- Sabe, eu perdi muitos anos me dedicando a esse trampo. O emprego regular tem por vezes uma enganosa casca de proteção: ele te confisca suas horas mais sagradas em prol de uma teia de segurança, mas meus últimos anos foram exemplos de escravidão moderna. Mais de 6 videos por dia, em alguns momentos. Plantões em cima de plantões, fins de semana decepados. Muitas vezes me senti uma índia degolada.

Eu nunca tivera um emprego regular, disse a ela, portanto não sabia o que era isso. Mas podia tentar compreender como ela se sentia. Ela continuou narrando a saga de sua desventura. Contou que, um mês após ter sido “saída” da empresa, lhe foi oferecida no Facebook a amizade com um alto executivo daquela mesma empresa que a demitira. Na foto do perfil, o cara estava na Europa, com a família, aparentemente em férias. O curioso é que aquele pai de família era o mesmo homem que demitira 776 pessoas no ano anterior.

- Sei das loucuras que as pessoas fazem no trabalho por uma irmã doente, um pai com câncer, uma mãe esquizofrênica ou simplesmente para alimentar os filhos e os netos.  Por aqueles caraminguás, finge-se que um chefe tirano e desonesto é um portento ético, simula-se que reuniões burocráticas e sensacionalistas são cheias de sacadas e achados, que as tomadas de decisão de racionamento e economia são justas e festejam-se medidas de modernização que são as mesmas de todos os anos anteriores. Não sou capaz de julgar ninguém que faça isso, porque eu mesmo suspeito que tenha feito algo do tipo em algum momento passado.

Eu ouvi quieto ali na penumbra, doido para dar um beijo nela. Era fascinante o jeito como ela descrevia as coisas, seus insights morais. Eu pontuei:

- Mas desconfio que aquele executivo em férias na Europa com a família não tenha demitido 776 pessoas apenas para continuar levando os filhos à Eurodisney uma vez por ano. Acho que ele fez o que fez mais por si mesmo, para satisfação de seu próprio ego, além da manutenção do status quo que o preservaria.

- A maior parte dos crimes éticos são autossuficientes para o criminoso, eu continuei. Eles não precisam de justificação, não precisam ter uma motivação superior ou inferior. O crime é o seu próprio fim.


Ela pareceu concordar, mas não dava para ver o fundo dos olhos ali no grande salão em ruínas do Clube Pinheiros, apenas as linhas do rosto, uma geometria rara e profunda. Ela suspirou, disse que precisava ir, perguntou se eu iria ao cinema com ela um dia desses. Eu, como se já esperasse por aquilo e me sentisse abençoado por um naco do interesse dela, não resmunguei nem implorei por nada. Sorri com uma cara de frango abatido.



(trecho de ficção encalhada)