terça-feira, 17 de outubro de 2017

A CASA DE BRANCA












No número 526 da Rua Bispo Azeredo Coutinho, em Olinda, algumas escavações nos fundos de uma loja de artesanato revelaram objetos e restos de edificação que parecem ter sido de uma sinagoga. Foi identificada ali uma micvá (piscina para imersão e purificação espiritual) e aparatos escultóricos que parecem demonstrar essa tese. Religiosos têm ido até lá para rezar. "Cada vez mais", diz uma balconista. A descoberta disso alvoroça fieis e pesquisadores.

Atualmente, é possível entrar na micvá, tocar nas peças (uma pia de pedra e outros resquícios) e caminhar nas escavações. Não há placas nem cuidados especiais para controlar o turismo.
O blog Morashá, de Semira Adler Vainsencher e Jacques Ribemboim, publicou em 2011 um texto afirmando peremptoriamente que aquela foi a antiga residência da cristã-nova Branca Dias.

Branca Dias foi uma senhora de engenho que virou lenda no Nordeste. Cristã-nova (descendente de judeus portugueses convertidos à força ao cristianismo no final do século XV) teria vivido ali no século 17 ou 18, de onde teria saído presa pela Inquisição e levada a Lisboa para execução sob acusação do crime de judaísmo.

Sua figura é tratada tanto pela cultura popular quanto pela erudita. Em Romance da Pedra do Reino, do escritor Ariano Suassuna, Dom Quaderna, herdeiro da corte sertaneja, fala em Branca Dias e sua tragédia. Há diversas Brancas Dias na arte. Na peça O Santo Inquérito, Dias Gomes teatralizou sua história nos anos 1970, com Regina Duarte no papel da protagonista. Há também uma personagem de romance do século 19, de Joana Maria de Freitas Gamboa, autora pernambucana.

Em Pernambuco, Branca Dias é tratada como uma heroína local. Na Paraíba, idem.

Ocorre que o pesquisador Irineu Joffily foi fundo na busca das origens e real existência de Branca Dias, concluindo que a única Branca Dias real teria sido paraibana, na verdade, possuidora de um engenho e grande fortuna. “Vivia na memória dos paraibanos e, como toda memória, tinha um aspecto presencial. A personagem continuava presente na região, mesmo tanto tempo depois de seu suposto martírio”, escreveu.

Segundo o blog Morashá, os cristãos-novos reuniam-se secretamente e mantinham uma intensa vida comunitária judaica, organizando esnogas (pequena  sinagoga não oficial onde são realizados o culto a Deus, a leitura da Torá, a recitação de salmos etc.), guardando o shabat e a cashrut, e comemorando suas festividades. Mas havia a ameaça do Santo Ofício.

“Neste ambiente, destacava-se o casal Diogo Fernandes e Branca Dias, que mantinha duas sinagogas, uma no recôndito da casa de Olinda, outra no engenho Camaragibe, a poucas léguas de distância”. Para eles, essas escavações de Olinda apresentam indícios que mudam a História: ali seria efetivamente o local onde viveu Branca Dias com sua família e, por conseguinte, a primeira sinagoga das Américas.


Nascida em Portugual, Branca Dias, acusada de práticas judaizantes pela própria irmã (e talvez também pela mãe) quando ainda vivia em solo lusitano, foi presa pela Inquisição e conduzida às masmorras de Lisboa. Teria escapado para o Brasil e se reencontrou com o marido, Diogo Fernandes, em Pernambuco.

Não encontrei muita coisa sobre o caso das escavações de Olinda em periódicos e nem pesquisas mais apuradas.

domingo, 15 de outubro de 2017

O COURO QUE ME COBRE A CARNE NÃO TEM PLANOS







Renato Piau faz o oitavo show sem Luiz Melodia em Iguape, no litoral de São Paulo, na noite de sábado.
Na cadeira vazia de Melodia, um tecido africano.
Melodia morreu no dia 4 de agosto, aos 66 anos.
Piau o conheceu em um show de Gal Costa, quando ela incluiu Pérola Negra, do jovem compositor Melodia, do Estácio, no repertório.
Era Gal Fa-Tal, em 1971.
Piau e Melodia ficaram amigos e parceiros.
De lá para cá, Piau acompanhou Melodia ano após anos, por todo o País e pela Europa, Estados Unidos, Ásia, todo lugar. Mais de 40 anos lado a lado.
Uma vez, um crítico de música desancou a composição Fadas, de Melodia.
Que estava fazendo sucesso, surpreendendo até mesmo Melodia, que a tinha deixado para trás.
Melodia comentou com Piau:
"Olha isso aqui, Piau. O crítico Fulano diz que não entendeu nada da letra de Fadas. Mas então porque ele não assobia apenas?".









segunda-feira, 2 de outubro de 2017

TRIBUTO AOS 171 QUE SE FORAM





Pelas minhas contas, nos últimos 2 anos, 171 jovens foram mortos por doidos em festivais de música na Europa e nos Estados Unidos.

Em maio deste ano, num show da cantora pop Ariana Grande na Manchester Arena, na Inglaterra, 22 pessoas foram mortas e 100 ficaram feridas em explosões provocadas por extremistas britânicos no meio da plateia.

Em 13 de novembro de 2015, durante um show da banda Eagles of Death Metal no Bataclan, em Paris, terroristas se infiltraram entre o público e começaram a atirar indistintamente contra o público. Mataram 90 pessoas.

Em junho deste ano, um festival na Alemanha, em Nürburg, o Rock Am Ring, chegou a ser cancelado por ameaça de atentado.

Na madrugada desta segunda-feira, em Las Vegas, um cara chamado Stephen Paddock, de 64 anos, se encastelou numa janela do Mandalay Bay Hotel and Casino com um fuzil automático e mandou bala lá para baixo. Em 4 minutos e meio de tiroteio, matou 59 pessoas e feriu 200, até agora, jovens que frequentavam um festival de música country. Depois, foi morto pela polícia.

O local fica na Las Vegas Strip, um quadrilátero de mais ou menos 7 km no Las Vegas Boulevard, onde se localiza a maioria dos hotéis e cassinos de Las Vegas. Entre 8 a 16 de maio de 2015, aquela mesma região abrigou o festival de origem brasileira Rock in Rio USA, que recebeu 140 mil pessoas e teve shows de Metallica, Joss Stone, Bruno Mars e Linkin Park, entre  outros.

O hotel Mandalay Bay é do mesmo grupo que se associou ao Rock in Rio, o MGM Resorts. Muitos dos frequentadores e artistas do festival ficaram lá em 2015. Nesses momentos é que a gente sente a proximidade de algo do qual não se pode nem tentar defesa, uma das mais covardes agressões.

Há uma facilidade grande no acesso que vulnerabiliza todos os festivais de rock e congêneres mundo afora. Não há grande segurança no entorno, porque até pouco tempo não se admitia que tais eventos pacíficos, de congraçamento e reunião jovem, fossem ser considerados como alvo pelos malucos de plantão. Não parecia lógico.

O primeiro sinal vermelho contra esse tipo de insano ocorreu lá nos anos 1960. Foi em 9 de agosto de 1969, quando o maluco Charles Manson, com sua seita de desperados, invadiu a casa do cineasta Roman Polanski em Bel Air e matou 4 pessoas, incluindo a mulher de Polanski, a atriz Sharon Tate, grávida. Foi uma espécie de epitáfio para o sonho hippie.

Os sucessivos ataques contra festivais (atirar contra admiradores de música country, um dos redutos conservadores da música americana, como a sertaneja tem sido no Brasil, é no mínimo irônico). Parece ter uma função, a de disseminar a ideia de que não há refúgio contra o desejo de vingança. Os festivais, em suas versões "Éden original", como Woodstock, prometiam uma zona franca de paz, solidariedade, desprendimento, amor e cumplicidade artística. Os terroristas querem que não haja mais a sensação de oásis cultural em lugar nenhum. Mas eu torço para que não vençam. Nunca.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

HUGH






PLAYBOY, 50 ANOS

UMA NOITE NO TEMPLO DAS FANTASIAS MASCULINAS
(18 de janeiro de 2004)

Jotabê Medeiros



Meia centena de homens excitados tumultua o hall do hotel Merv Griff's Hilton de Beverly Hills, na Califórnia. E não é porque o vice-presidente americano, Dick Cheney, também esteja hospedado ali. É que, em pouco mais de meia hora da noite de quinta-feira, aqueles homens estarão em um lugar com fama de ser uma espécie de Hopi Hari do erotismo, um Playcenter da sexualidade: a Mansão Playboy, em Los Angeles.

Convidados para celebrar os 50 anos da revista e o êxito dos negócios mundiais do grupo Playboy, eles vieram de todo lugar do mundo para a festa - China, Japão, Índia, Argentina, Equador, Peru, Austrália. Criada em 1953, a revista Playboy é o carro-chefe do grupo, lida por cerca de 10 milhões de adultos norte-americanos todo mês. É uma publicação franqueada para 18 países, entre eles o Brasil (sua terceira maior vendagem no mundo). A Playboy TV chega a 130 milhões de lares (possui 1 milhão de assinantes na América Latina).

A mansão de Hugh Hefner fica na Charing Cross Road, num lugar de onde dá para ver o famoso letreiro de Hollywood na colina. A mansão fica perto da que foi de Frank Sinatra, que é breguíssima - o bairro todo parece uma espécie de filme de arquitetura de terror. O marketing pessoal de Hefner apregoa que ele vive na mansão com seis namoradas, aos 77 anos. Nos fundos da casa, contam, moram a ex-mulher de Hefner e dois filhos. ‘Não se pode dizer que ele não seja um homem de família’, brinca um executivo. Na entrada, há um mural com motivos gregos e mais adiante aparece um cartaz no meio dos arbustos, onde se lê: ‘Freie para animais’. Os homens (são 670 convidados) desembarcam ruidosamente e são recebidos pelas famosas coelhinhas da Playboy, com orelhas e pompons no traseiro, sorridentes e receptivas. Mais adiante, há um grupo de mulheres de biquínis pretos e saltos altíssimos. Logo são umas 200 mulheres por todo lado, um playground de peladonas.

A festa é nos jardins da mansão, então não dá para ver as famosas pinturas de Pollock e Picasso que dizem que Hefner tem nas paredes da casa. Com piscinas, cascatas artificiais e pedras gigantes coladas com cimento, a mansão não é muito diferente de qualquer motel com teto retrátil da Rodovia Raposo Tavares. A freqüência é que é um tanto diferente: estão por ali os atores Martin Landau e Jamie Brown, o cantor Enrique Iglesias, os roqueiros Marylin Manson e Ray Sugar e alguns atores pós-adolescentes daqueles filmes tipo American Pie, mas pouca gente sabe informar o nome de algum deles.

Os homens agora já tinham tomado alguns goles de uísque escocês e cerveja Michelob e tiravam fotos com Pamela Anderson (juro: até que não é tanto silicone assim). Quando a solícita Pamela não estava disponível, iam para os fundos do terreno, onde havia uma foto de Marilyn Monroe recortada, e tiravam fotos abraçando a deusa que foi a capa da primeira edição. Tudo conspirava para que o detector de chauvinismo das feministas disparasse na noite.

No palco, a capa da edição de dezembro de 2002, Dita Von Teese, ensaio intitulado O Retorno do Fetiche, dançava ao som de música de big band dos anos 20. Aos poucos, Dita inicia um strip-tease lânguido, com um sorriso de capa de revista, e vai tirando a roupa. Mas o corpete enrosca, ela tem de pedir ajuda a uma coelhinha auxiliar. Consegue tirar tudo e fica com um minúsculo tapa sexo. Ao final do número, ela entra dentro de uma taça gigante de martini e rodopia incessantemente, sob aplausos entusiásticos.

Bela morena ao estilo Betty Page, Dita von Teese dá o golpe de misericórdia no sujeito que já tenha chegado à terceira cerveja. Ato contínuo, um alemão assanhado, cuja silhueta parece com a de uma pêra gigante, atraca-se com a playmate desavisada e torna-se um polvo ameaçador. Ela brinca, roda e sai fora. O alemão sobra sozinho na pista.

No banheiro masculino, uma surpresa: Paris Hilton retocando a maquiagem, com dois seguranças na porta. Por conta disso, todos os homens são agora remanejados para banheiros alternativos. ‘Por via das dúvidas, eu tirei a aliança’, brinca um jornalista australiano na fila, falando com um colega canadense. No armário de todos os toaletes, há um kit padrão: um pote de aspirina, outro de vaselina, uma caixa de Tampax e nenhum envelope de camisinhas.

Então, ali pelo meio da festa, surge o anfitrião, Hugh Hefner. Ele senta numa mesa no centro do ‘salão’, com seis acompanhantes. É um coroa simpático, beija todas as moças que o cumprimentam na boca - Drew Barrymore esquivou-se e ofereceu a face. Hefner mostra que não é exatamente um modelo de parcimônia: come espetinhos de filé mignon enrolados em bacon e toma refrigerante normal, nada de diet. Criou um arcabouço ‘filosófico’ para justificar eticamente seu império.

‘As boas moças também gostam de sexo, e essa é a chave’, ele diz. ‘O que eu venho tentando provar é que o maior beneficiário da revolução sexual são as mulheres, não os homens, porque as mulheres foram forçadas a viver de um jeito não natural, num pedestal, consideradas como as filhas de Eva. O homem quer ficar com as garotas más e depois casar com uma garota boa. É uma tradição totalmente desfavorável para as mulheres’. Hef, como é conhecido, fala com todo mundo, atende o povo com um sorriso perpétuo e, em dado momento, sua ‘preferida’, Holly Madison, o puxa da cadeira e vão os sete para o centro da pista.

A DJ àquela altura era outra playmate, Colleen Shanon, do Alasca, daquelas do tipo que ninguém quer nem saber que música toca. Hefner dança com suas seis mulheres, ou coisa que o valha, e sustenta com heroísmo o mito de potência e longevidade sexual que ajuda seu grupo a faturar US$ 277 milhões por ano. Ao estilo Coisinha de Jesus, Hefner esforça-se para chacoalhar o esqueleto, e as garotas tomam drinques vermelhos e não param de sorrir.

Às 22h20, as garotas de biquíni preto, uma das tropas de choque da festa, iniciam outro número que parece previamente ensaiado: caem na piscina, e começam a dançar na água. Corajoso, ou muito bêbado, um dos convidados tira a roupa e entra junto. Os japoneses, com seu velho senso de honra, se sentem ultrajados e também começam a cair na piscina - o primeiro deles, tatuado como um gângster da Yakuza, ganha afagos das moças por todos os lados e grita triunfalmente para os não-molhados. Outro cai de terno e tudo.

Finalmente, um sujeito tira tudo e as garotas brincam com sua underwear abandonada na piscina. Um italiano consegue a proeza maior: convencer uma das peladonas a levá-lo até uma gruta misteriosa ao fundo da piscina, e o ragazzo desaparece para sempre da festa, atrás das bolas gigantes e jacarezinhos infláveis.

No território dos secos, uma playmate do grupo das vestidas (não muito vestidas, ressalta-se) aproxima-se do repórter. ‘Por que você anota tanto aí?’. É preciso sobreviver, é o tal do senso do dever, é meu trabalho. As desculpas soam esfarrapadas, ela ri e passa a mão na nuca do desafortunado repórter, e provavelmente considera-o um caso perdido.

Fim de festa é tudo igual. As coelhinhas peladonas reaparecem vestidas e, na saída, novas garotas distribuem kits com chinelinhos e bonés. No mundo de cenários de Hollywood, as festas de Hugh Hefner são apenas mais um sonho, alimentado por uma boa dose de fantasias masculinas estandardizadas.


E TUDO COMEÇOU COM UM CHIFRE...

Tudo começou em 1953, mesmo ano da publicação do Relatório Kinsey da sexualidade. Hugh Hefner criou e editou o primeiro número da revista Playboy na mesa da cozinha de sua casa, com um investimento de apenas US$ 600 (era tudo que tinha), e mais US$ 8 mil emprestados de parentes. O número inicial, que tinha Marilyn Monroe na capa e custava US$ 0,50, vendeu 51 mil exemplares.

Segundo escreve Gay Talese em seu livro A Mulher do Próximo, a obsessão de Hefner pelo sexo pode ter começado às vésperas de seu primeiro casamento, quando sua noiva, Mildred, confessou que o traía com um homem que conhecera numa estação de trem. Hefner, filho de pais puritanos protestantes, ficou abalado e ainda assim fez questão de casar-se, mas nunca mais foi o mesmo.

Os primeiros tempos da primeira revista de entretenimento masculino foram difíceis. O correio boicotava as assinaturas, entregando-as com atraso, e a polícia de Chicago, onde tudo começou, costumava perturbar a direção da empresa. Embora espalhe o mito e reproduza um discurso padrão para jornais e revistas, Hefner não convence como atleta sexual. Mesmo nas empresas, hoje, é uma figura simbólica, um garoto-propaganda de sua própria marca. A mulher forte da Playboy Enterprises é a filha dele, Christie, graduada em Literatura Inglesa, e que é casada com um senador por Illinois.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LAUDIR


laudir de oliveira com o neto





Em 1969, o brasileiro Laudir de Oliveira chegou a Los Angeles para tentar a sorte como percussionista e foi ver um show de um amigo. Na saída, quando ia embora do teatro, no estacionamento, um homem o abordou. "Você é o Laudir? O percussionista? Quer tocar na gravação de um disco na semana que vem?".
Laudir topou e, na semana seguinte, chegou ao tal estúdio. "Estava cheio de cabeludos, muita coisa proibida. Eu pensei em fugir, de medo. Mas não deu tempo, acabei gravando. Só depois fiquei sabendo que era o disco With a Little Help From My Friends, de Joe Cocker, com o Jimmy Page, Albert Lee", lembra hoje, divertido.
Filho de sergipanos, família de 11 irmãos, natural de Ramos (RJ), o lendário percussionista brasileiro de 76 anos seria um dos destaques da segunda edição do Iguape Jazz & Blues Festival, no ano passado. Mas o festival foi cancelado - fiz essa entrevista para o festival. Após 26 anos morando no Exterior (18 anos na Europa, 7 anos nos Estados Unidos, um ano no México), ele se restabeleceu no seu bairro de origem e prossegue em intensa atividade, além de empreender ações educacionais.
Bailarino de gafieira, ele viveu ali em Cacique de Ramos sua iniciação artística. Morava ao lado de um córrego. Do lado de lá, vivia o maestro Moacir Santos, que lhe deu "três dias de aulas de percussão". Baden Powell, amigo da família, visitava sua mãe. Pixinguinha, João da Bahiana, o maestro José Prates: no entorno, conheceu e aprendeu com os maiores.
Na era da contracultura, Laudir fez o nome no Exterior com sua marca inconfundível de ritmista de candomblé. Chegou aos Estados Unidos na mesma época que Airto Moreira. "Ele tocou com Miles Davis e virou músico de jazz. Eu toquei com Joe Cocker e virei músico de rock. Mas até hoje não sei dizer o que é rock. Acho que é baiano, o rock", brinca. Não por acaso, seu disco mais recente, com o grupo Urca, Bossa, Jazz, é o álbum 70 Anos de Raul Seixas, em homenagem ao roqueiro baiano.
Laudir foi para os Estados Unidos, na verdade, acompanhando o espetáculo Brasiliana, uma turnê que correu o mundo durante 3 anos, com 33 artistas no elenco. Ele tinha sido ator no Brasil, encenou Antígona, de Sófocles, na companhia de Pascoal Carlos Magno. Mas abandonou a carreira para seguir a trupe. Como músico, formou o Família Sagrada com Luiz Eça e o Som Imaginário, com Milton Nascimento. Ao deixar ambos, foi substituído por Naná, grande amigo.

Em 1970, ele, Naná Vasconcelos e Airto Moreira, os maiores da percussão, tentaram criar um grupo em Los Angeles (teria ainda Herbie Hancock no teclado). Mas não deu certo: Airto insistia em colocar a mulher, Flora Purim, como cantora, e Naná era contra ter vocalistas no grupo.
Recrutado pela banda Chicago, onde ficaria até 1981 (e com quem ganhou um Grammy, em 1976), Laudir recentemente foi admitido no Hall da Fama do Rock, junto com o grupo que integrou. Seu toque afro na cozinha da banda a tornou uma das mais longevas do rock, mais de 40 anos na ativa. Tocou e gravou com Chick Corea, Gerry Mulligan, Lee Ritenour, Sergio Mendes. Sua batida está no disco Destiny, da banda familiar de Michael Jackson, The Jacksons, entre centenas de outros registros.
Em setembro, seria publicada a biografia de Laudir de Oliveira, de autoria de Washington Araújo. Antes, ele passaria por Iguape com um convidado especial, o gaitista Jefferson Gonçalves. "Se ele é bom? Eu sou bom. Ele é MUITO bom!", diz o percussionista, que já tem tocado com Jefferson há algum tempo.

Segundo o noticiário, Laudir morreu ontem, domingo, de infarto, em pleno palco, durante um show no Reduto Pixinguinha, em Olaria, Zona Norte do Rio. Um gigante.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DEVENDRA TROPICAL







Ali nas imediações do Rei das Batidas, a casa de shows Tropical Butantã terá a seguir, após o freak folk de Devendra Banhart, ontem à noite, uma apresentação de Amado Batista. Isso é que é ecletismo!

O Tropical Butantã não é um espaço ruim, tem boa localização, espaço generoso e os azulejos do piso estão desgastados, o que prova que muita gente já foi feliz naquela pista. Mas ontem tinha só dois caixas vendendo cerveja, e trezentas pessoas em média em cada fila. Quando o show terminou, tinha gente ali que ainda não tinha conseguido comprar uma Skol. Para sair do lugar, tinha que passar pelo fumódromo, um corredor polonês de fumaça em blocos e nenhum caminho livre.

Devendra caiu ali, eu imagino, por conta do tamanho do lugar: cabem 2,5 mil pessoas, e no Cine Joia só cabem 900 pessoas. Quase três vezes o faturamento. Mas o som, lá atrás, era três vezes menor que o espaço físico.

Com a banda no palco, Devendra abriu com Saturday Night (do disco mais recente, Ape in Pink Marble, de 2016). A batida é descolada de uma costela de In the Air Tonight, de Phil Collins. A sonoridade lembra as canções de um folk singer memorável, Lobo, que o mundo esqueceu.

Mas foi o disco Mala (2013) que mais compareceu, com cinco músicas, até porque é uma obra-prima. A segunda música foi Fur Hildegard von Bingen (ele cantou ainda Daniel, Mi Negrita,Golden Girls, Never Seen Such Good Things). Eu escrevi sobre esse discaço há algum tempo:


Devendra falou português, chamou o baterista de "Deus grego", brincou com o tecladista que só fala francês e elogiou a banda O Terno, de São Paulo, que vendia camisetas feitas na hora num mesão nas imediações dos caixas.

“Não há ninguém que eu tenha conhecido tão bonito quanto você”, diz a letra de Jon Lends a Hand. Ao fundir Jon Lends a Hand com My Sweet Lord, de George Harrison, Devendra Banhart conduziu a plateia a uma utopia limpa dos anos 1970, um sonho ainda sem conservantes e sem mediação de ONGs. Krishna hare, hare Rama!

No set “acústico” de Devendra, quando ele cantou Brindo, um bêbado no bar (como ele ficou bêbado sem ter como comprar cerveja é um mistério) gritou para o cantor: “Vou ligar para sua mãe e dizer que você tá fazendo um show ruim aqui essa noite!”. O cara, claro, era masoquista, porque era só ir embora se não tava gostando e voltar a odiar com método e sistemática nas redes sociais.


Penso que só de ter ouvido Baby (2010) e ter dançado como um frango desossado em volta da Nana já teria valido a noite. De qualquer modo, o bêbado não estava totalmente sem razão. Devendra está com a autoconfiança muito em alta e tornou-se meio displicente em cena. Seu último show no Cine Joia tinha sido muito mais bacana.

Sim, eu sei: minhas fotos ficaram horríveis. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DECIFRANDO O MISTÉRIO





Vi que o colega Mauro Teixeira, blogueiro, escreveu uma crítica ao meu livro sobre Belchior. Não é totalmente desprovida de fundamento: a maior acusação que ele me lança é de não ter elucidado o “mistério erguido em torno de Belchior”, na acepção detetivesca da expressão. Nisso concordo com ele. Até tentei fazer uma autópsia noturna no corpo do cantor, mas não foi conclusivo o exame que poderia demonstrar a hipótese de envenenamento. Tentei também um download do córtex cerebral, para ver se tinha sido a amargura que o levara, mas o equipamento falhou.

Caricaturas à parte, o mínimo que posso dizer de Mauro Pereira é que é um ingrato. Ele escreveu errado o nome de Belchior durante toda a vida, em suas resenhas voluntariosas (provavelmente por conta do rigor investigativo que o fascina tanto). Isso perdurou até o dia de ontem, quando ele terminou de ler minha biografia e pela primeira vez grafou corretamente o nome: Antonio Carlos Belchior. O nome que estava na Wikipedia, de onde se copiava automaticamente tudo que era “amplamente conhecido” sobre Belchior, foi inventado pelos redatores de O Pasquim (Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes) para justificar o título da capa do jornal, O Maior Nome da MPB. Imagine você passar a vida escrevendo errado o nome de um artista, como fiz com o resenhista nos dois parágrafos acima?

Mauro Ferreira diz que escrevo com estilo e que meu livro “parece uma grande reportagem”. Não posso discordar. Às vezes me esqueço de fazer reportagens, mas logo volto atrás, como naquela canção do Wander Wildner. Tenho que advertir, porém, que A Sangue Frio, de Truman Capote, embora pareça “apenas uma grande reportagem”, é um livro referencial da literatura universal. Mauro ainda reclama uma biografia “que ilumine recantos escuros da alma do biografado”. Nesse ponto, parei imediatamente de me sentir lisonjeado com o elogio dele, de que eu tenho “estilo”.

Mauro exibe aquela pose de implacabilidade na análise de uma presumível falha da discografia. Ele exige lista de canções. Eu acho justo. Só recomendaria ao colega que, para manter as aparências de honestidade intelectual, retorne no tempo e exija isso também de Nelson Motta e O Som e a Fúria, biografia de Tim Maia que nem discografia tem e ele adorou. Ou de Caetano, uma Biografia, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que também não tem discografia - e 95% das biografias brasileiras de música, como as de Erasmo Carlos, Aracy de Almeida, Rolando Boldrin ou Elis (de Arthur Faria).

Para revestir de alguma autoridade seu argumento, Mauro aponta um erro de digitação (2006, em vez de 2016) na discografia, e a ausência de uma reedição de oportunidade em CD. São detalhes que poderão ser plenamente corrigidos numa segunda edição.

Mas foi quando ele disse que “tudo isso seria desculpável” se houvesse uma narrativa minuciosa da vida de Belchior que eu fiquei intrigado. Quem me desculparia? Tem que pegar senha? Ele me desculparia por escrever que Belchior era corinthiano, que estudou caratê, que ensinou a filha a apreciar Kurosawa e compôs a música Ypê tendo como inspiração a árvore da casa do sogro? Que compôs Vício Elegante para a namorada do Parque Ecológico do Cocó?

Sua noção de “minucioso” não fica muito clara. Eu gostaria que ele apresentasse (pode colocar um link aqui nos comentários, se quiser) um único artigo ou relato anterior ao meu que narre a vida de Belchior no mosteiro dos Capuchinhos ou na infância em Sobral. Um único artigo que comprovasse que essas passagens já tinham sido descritas anteriormente em periódicos ou livros.

Mauro acha que recorrer à própria fala de Belchior em depoimentos históricos gravados durante toda sua vida é sintoma de fragilidade de uma biografia. Os programas de Fernando Faro, as antigas edições do Pasquim ou da revista Música: tudo isso são preciosas fontes documentais, registros da história, verdadeiros tesouros. É como arbitrar que só podem existir fontes primárias num trabalho biográfico. Paulo Cesar Araújo, rato de arquivos, retira dali grande parte do material fundamental de suas grandes biografias.

Como eu já disse em resposta a um post de uma leitora, exigir que o autor de J.D.Salinger - A Life, Kenneth Slawensky, "decifre o mistério" da misantropia de Salinger definitivamente para que sua biografia tenha "fôlego investigativo" e seja “desculpável”, me desculpem, é bizarro. Equivale a interditar qualquer autor de escrever sobre David Livingstone porque ele sumiu na floresta.

O final do texto de Mauro o encontra já inchado de auto-importância, dizendo que está impaciente à espera de outra biografia. Não tenho como afirmar isso, mas suspeito que até sei de quem é que espera biografia que mereça o texto laudatório. O fulanismo é a doença juvenil do compadrio.