domingo, 15 de abril de 2018

O DIA EM QUE MEU PAI FAZ CEM ANOS








Não cheguei a ver meu pai envelhecer porque andei muito tempo longe. Saí de casa aos 16 anos para tentar a vida em Curitiba sem nenhuma habilitação relevante para nada, e desse dia me lembro apenas de ele ter me estendido a mão dura, uma mão de textura semelhante a um leito de rio seco, e dito: “Deus lhe abençoe”.

No próximo final de semana, quando nós reuniremos uma centena de nós mesmos para celebrarmos seu centenário, posso contar nos dedos de uma mão aqueles que acreditávamos que isso pudesse acontecer. Cem anos. Quando minha mãe morria, câncer no útero, me lembro de ela ter pedido para que ficássemos em torno dele porque ele nos manteria unidos. Acho que, de uma forma ou de outra, todos seguimos o conselho dela - mas chegar tão longe assim parecia inimaginável.

Não há ciência alguma nisso que vou contar, mas é possível que meu pai tenha sido crupiê ou leão de chácara de um cassino, e também vendedor de carvão em um caminhão pelo sertão do Cariri, embora ele nunca tenha aprendido a dirigir. Se foi vaqueiro algum dia, foi de chapéu de feltro Panamá e calça de tergal, sem gibão. Não há fé nenhuma no que vou relatar, mas é possível que meu pai tenha sido batizado, embora tenha sempre odiado padres e pastores e igrejas. Sei muito pouco dele e o pouco que eu sei é história que cresce com o tempo, então algumas histórias já são grandes demais para desmenti-las agora. Sempre me lembro do pai com algo entre 50 e 60 anos, como se não houvesse outra imagem dele senão aquela que ele decidiu que ficaria para sempre em nossa memória.

De todas as histórias que conto aos meus filhos pequenos, Bento e Tito, 4 e 2 anos, as preferidas deles são as que têm meu pai como protagonista. O dia em que o pai nos tirou da cama, eu, Sandrão, Marcelo e Jack Balalaluco, para dormirmos no mato da Companhia Melhoramentos para tentar capturar um ladrão de cavalos. Ele acendeu uma fogueira, colocou os filhos em torno da fogueira e sumiu no mato escuro com seus olhos de chispas. Eu peguei pedras e coloquei sob o travesseiro para um eventual confronto. Tito arregala os olhos nessa parte. Sempre digo aos meninos, para tranquilizá-los, que nunca aconteceu nada, porque senão eu não estaria ali para contar a história.

Eu usava as botinas do velho escondido para ir ao colégio. Todos os homens da família calçamos o mesmo número. Ele fingia que não via as botas sujas ou amaciadas. Só uma vez me deu conselho sobre namorada. "Velha demais pra você. Não vá longe demais".

Marcelo meu irmão está há um ano planejando cuidadosamente cada passo da festa do próximo final de semana, cada carneiro abatido, cada primo cooptado, cada chantagem com os indecisos. Creio que haverá muita música. Ouviremos, com certeza, aboio e Belchior, Gonzagão e Bobby Womack. Riremos de novo de velhas piadas que já conhecemos de cor e conheceremos novos bisnetos, sempre um mais bonito que o outro.

Maria Célia, minha irmã (que tinha o mesmo olhar de cólera dele quando estava brava), alguns meses antes de morrer me deu cópia da certidão de nascimento do pai que colheu no cartório de Serra Branca. Durante alguns anos eu não sabia o que fazer com aquela certidão, mas agora já sei. Então, podemos confiar que todos iremos?




João Francisco de Medeiros nasceu em 17 de abril de 1918 em Serra Branca (PB). A festa será nos dias 21 e 22 de fevereiro, na aprazível Cianorte (PR)

terça-feira, 3 de abril de 2018

O PROFESSOR CALASANS




O professor Calasans (centro) ensinando in loco, no sertão de Canudos




“Faz pena um homem como eu morrer assim acocorado”, disse Pedro José de Oliveira, o Pedrão Porteiro, homem de estrita confiança de Antonio Conselheiro, sentado numa gamela em Cocorobó, paralítico das pernas, aos 90 anos.

Pedrão Porteiro disse isso a José Calasans, o grande historiador de Canudos. Calasans me contou a história na biblioteca da Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, em 1996, quando o entrevistei frente ao único manuscrito de Antonio Conselheiro (Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo para Salvação dos Homens, 554 páginas copiadas do Novo Testamento e 256 páginas com ideias do Conselheiro sobre os Evangelhos). O notável historiador Calasans recolhera todos os fragmentos documentais e orais da história de Canudos em sua longa vida.

Pedrão Porteiro e seus homens derrotaram 1.300 soldados armados do sanguinário coronel Moreira César, em março de 1897, e enfrentaram despachos de juízes e desembargadores que representavam o poder instituído. Nem armas tinham. Mas chegou a velhice e o abandono e a pobreza e ele se preparava para morrer ali, anônimo, imóvel. “Nenhum amor lendário está baixando para encher esse quarto no final”, como cantou Lou Reed em Legendary Hearts.

Mas a frase de Pedrão Porteiro era ainda carregada de orgulho, não de capitulação. “Um homem como eu”. Carregava em si não a nostalgia do que fora, mas o valor presente e inalienável das cicatrizes de sua batalha. Pedrão não podia mentir a si mesmo, de algum modo ele sabia que mudara o mundo.

Pensei na frase de Pedrão Porteiro, que vive na minha cabeça, porque vivemos tempos de extrema covardia e, mais sombrio ainda, do elogio da covardia. Tocaiar, exterminar, difamar, mentir: tudo parece motivo de orgulho. Bravura é tida como idiotia, numa jornada de assombrosa inversão humanística. A deslealdade é tutelada pelo Capital, ganha coluna em jornal, assume postos de comando nas autarquias. Subiu à tona uma vaporosa consciência coletiva de negatividade, que é mobilizada conforme se quer abafar toda voz contraditória.

O que não parece mudar, no entanto, é a disposição dos Pedrões Porteiros. Eles estão aí, às vezes capengando, sentados em uma gamela, mas conscientes de que o mundo se muda a partir do enfrentamento, não da entrega. Que o servilismo, no qual se fundam quase todas as teses do desenvolvimento, não é o destino dos homens. Vi um documentário de Rose Panet sobre outra dessas figuras, Manoel Bernardino, o Lenin da Matta, guerreiro que viveu no início do século 20. Em pleno sertão maranhense, Bernardino organizou e emancipou homens do mato. Encanta, mais do que tudo, ver o poder da autogênese, do nascimento espontâneo de um líder em territórios quase esquecidos.

Ao final de Canudos, Antonio Conselheiro tornou-se aquela descrição de Euclides da Cunha ­- um "anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão, em que se apoia o passo tardo dos peregrinos...". Essa imagem prevaleceu durante muito tempo, mas Antonio Conselheiro (em toda sua complexidade) emergiu lentamente do fundo do açude de Cocorobó e hoje já é maior do que todos os tempos.

Garimpeiro das grandezas do povo, o professor Calasans, que era sergipano, morreu em 2001 aos 95 anos, em Salvador. Meu artigo sobre sua partida tinha o título: “Calasans foi o primeiro a ouvir o lamento do sertão”.




segunda-feira, 5 de março de 2018

O CONTRATO QUE PODE SER NULO







CONTRATO DE GESTÃO DA CINEMATECA PODE NASCER NULO




Os ministros da Cultura, Sergio Sá Leitão, e da Educação, Mendonça Filho, assinam nesta terça-feira, em São Paulo, a transferência da gestão da Cinemateca Brasileira para uma organização social, como o ministro Leitão já tinha adiantado em fevereiro com exclusividade para o jornal O Globo.  

A cerimônia de assinatura do contrato será às 15h no Largo Senador Raul Cardoso, 207, na Vila Clementino, na sede da Cinemateca (antigo Matadouro), onde fica a representação regional do Ministério da Cultura (o representante é o radialista Nello Rodolpho). Antes, o ministro almoça com o jornalista Augusto Nunes, ex-Roda Viva.  A instituição passa a ser gerida pela Associação Comunicativa Roquette Pinto (Acerp), sediada no Rio de Janeiro.

O problema é que a Acerp já possui um contrato de gestão anterior com o governo: ela é gestora do programa TV Escola, do Ministério da Educação. Recebeu R$ 27 milhões em 2016 para a administração desse contrato. E, de acordo com o artigo 29 do decreto 9129, de 1º de novembro de 2017, só é permitido a uma OS (Organização Social) um único contrato com a administração federal.

O texto do decreto, assinado pelo próprio governo de que fazem parte Leitão e Mendonça, é claro: “A entidade privada qualificada como organização social somente poderá celebrar UM contrato de gestão com a administração pública federal”. A Associação Roquette Pinto terá o segundo amanhã, o que assegura a nulidade do ato.

O contrato prevê a transferência da gestão integral dos núcleos de Preservação, Documentação e Pesquisa, Difusão, Administração e Tecnologia da Informação da Cinemateca Brasileira. Segundo o MinC, o “principal centro de memória e referência do cinema brasileiro será a primeira instituição do MinC a ter este tipo de gestão, que traz mais autonomia administrativa e financeira”.

O ministério já tinha anunciado intenção de fazer o mesmo na Casa de Rui Barbosa e no Museu Imperial de Petrópolis. A Cinemateca Brasileira surgiu a partir da criação do Clube de Cinema de São Paulo, na década de 1940. Presente na estrutura do MinC desde 1984, é a mais antiga instituição de cinema do País. É também o centro nacional de informações cinematográficas e audiovisuais, responsável pelo registro, guarda, reparo e preservação da produção cinematográfica nacional.



EM TEMPO: Durante a cerimônia, Sérgio Sá Leitão comentou a reportagem aqui do blog. Ele explicou o seguinte: "O decreto determina que pode ter contrato com um só órgão da administração. Estamos celebrando este contrato no âmbito do mesmo contrato que a Acerp tinha com o Ministério da Educação. O ministério da Cultura entra como interveniente. Este contrato passou pelas consultorias jurídicas e também pelo Ministério do Planejamento".
Só lembrando que o texto da legislação diz: “A entidade privada qualificada como organização social somente poderá celebrar um contrato de gestão com a administração pública federal”. 
O contrato da TV Escola e o contrato da manutenção e guarda de todo o acervo cinematográfico nacional parecem "do mesmo âmbito?". Têm a mesma natureza? Não me parece o caso. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

TUIUTI






Qual é o lugar da política na vida comum, cotidiana, da gente comum brasileira?

Eu, como jornalista, descobri mesmo antes de sair da universidade que, no jornalismo, esse lugar estaria reservado para as editorias de política, economia e internacional. Como muito cedo me acochambrei nos territórios da música, da literatura, do cinema, da cultura, política seria apontado a mim como algo para o qual eu não estaria habilitado (nem a fazer nem a palpitar).

Quando fui convocado pela primeira vez para cobrir uma eleição presidencial, a editora-executiva veio me cumprimentar cumprimentando a si mesma pela aquisição de um texto refinado de “comportamento”, como ela chamou, algo que poderia dar conta dos “respiros” entre as reportagens. Em outras palavras: eu encararia as frescurices, o pastel dos candidatos, as reportagens de apoio, o frufru da coisa.

Eu concordei imediatamente com ela: “Sou um analfabeto político, espero poder ser útil”, eu disse, rindo-me da minha própria ousadia: a de dizer claramente a ela que seu sonho em matéria hierárquica era justamente esse, ter um exército de analfabetos políticos à sua disposição para preencher sua expectativa de manipulação e consentimento.

Em duas ou três semanas, a editora descobriria que eu era perigosamente instruído naqueles domínios - um dia conto essa história. Só sobrou uma alternativa pra ela: me barrar na cobertura, restringir a circulação entre minha mesa e o cafezinho. Claro: sem assumir que era uma interdição. Eu já tinha a consciência de que havia uma guerra suja, jamais declarada, nos territórios da cobertura de política que vinha de muitos anos. Aturavam-se as diferenças, mas até o ponto em que elas não fossem diferentes demais. Ainda assim, havia algo de democrático naquilo, eu pensava.

Não que eu tivesse um currículo bárbaro nessa seara. A maior façanha foi nos anos 1980, quando fui julgado e posteriormente expulso da Casa do Estudante Universitário, entre outras barbaridades, por termos, eu e alguns amigos, colocado uma faixa DIRETAS JÁ PARA PRESIDENTE na fachada da residência universitária, na Avenida JK.

Não sei explicar porque tenho o germe da política na íris dos meus olhos (para citar uma notícia recente de uma mulher que descobriu vermes em seu olho). Teria sido melhor ter sido um palermoso inocente. Eu sempre soube, por exemplo, que a neutralidade dos repórteres da área de Política era uma farsa; 98% deles tinham um lado, 1% eram mercenários cujo lado seria determinado pelos prêmios que conseguiriam obter com suas informações. Os outros 1% eram muito muito burros, o que os levava a confundir até a si mesmos.

Portanto, a mim não restava outra saída a não ser fingir o grau de consciência política que eu tinha sobre esse universo. Vivi muito tempo assim: saía do esconderijo, atirava e depois, repreendido, me recolhia a um isolamento profundo, ia para o Gulag dos insensatos. Ficava alguns dias ou meses na solitária, depois me liberavam por necessidade de mão de obra. Conforme recrudesceu o debate político, as diferenças foram sendo extirpadas das redações, foi tudo ficando mais parecido com o sonho daquela antiga editora-executiva.

Escrevo tudo isso não porque tenha ficado subitamente memorialístico. É uma forma de introduzir ao debate que sobreveio com a fabulosa aparição do desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti.
Muita gente tem escrito sobre a Tuiuti. Eu li de tudo um pouco. E me detive basicamente nos argumentos da esquerda, que repete, como a direita, aquele cânone institucional da política. A Tuiuti, nessa ótica, seria uma coisa do povo que acertou fantasticamente ao tratar de algo que não é de sua "alçada". Já para a direita, errou fenomenalmente, como é do seu feitio.

Mas tratar a Tuiuti como mais uma “ousadia” carnavalesca com efeito circunstancial é errado, em minha opinião.

O que a Tuiuti fez, e me deixou profundamente balançado, foi ter invadido o terreno “exclusivo” da política com o mais duro, eficaz, jornalístico, político e ético dos discursos. A Tuiuti dinamitou uma bolha.

A política vinha se tornando uma coisa muito reativa no mundo atual. Após uma decisão monocrática do STF, um júri qualquer, as delações juramentadas e vazadas, uma prisão, uma prescrição de crime, uma pesquisa de opinião, vinham as enxurradas de opiniões e argumentações. Quase tudo permeado por sarcasmo e ironia. Tudo inócuo, tudo controlado e mediado pela força dos robôs.

A Tuiuti foi um ato orgânico de desobediência civil. Em vez de reagir a um acontecimento, ela FOI o acontecimento. Não sublimou os fatos, ela os sequestrou para si.

Afrontou o poder de um uníssono midiático. Identificou cúmplices involuntários e voluntários desse uníssono no próprio povo do qual faz parte, aceitando a satanização que (sabia) viria a seguir.

Ao amarrar as duas pontas da escravidão, com raro talento dramatúrgico, encenou a tese dos best-sellers de Jessé de Souza, para quem são indissociáveis a figura do senhor de escravos daquela do bacana que entra na areia da praia, no Litoral Norte, com um carrinho de bebê ladeado por duas babás de uniforme (ou do mentecapto que lava os pés com Veuve Clicquot no Jurerê).

Em plena avenida das transgressões sazonais admitidas, a Escola insurgiu-se contra um golpe de Estado de peito aberto. Afastou a generalidade, foi ao particular, ao ponto preciso. Ao fazer isso, reagrupou a fogueira de vaidade das forças democráticas em torno de uma unanimidade, pela primeira vez em dois anos.

A cobertura jornalística ordinária não tem como dar conta da dimensão do acontecimento que foi o desfile, porque não se trata simplesmente de um único acontecimento. São vários. Tentei falar com o carnavalesco, Jack Vasconcelos, porque achava que alguns pontos ele poderia esclarecer. “Jack não quer falar. Está muito chateado com o que anda saindo na imprensa”. Na verdade, isso é uma dedução minha, mas falta ainda sair o essencial.

É de uma profunda imbecilidade achar que a política é maior do que a cultura (ou que a contém, mas não o contrário). O problema é que, na prática, não se desafiam essas compartimentações. Concordamos, jornalistas, acadêmicos, ensaístas, ativistas, que é preciso rotular as coisas. As compartimentações regem a vida cotidiana, todo o resto seria ponto fora da curva. Mas a Tuiuti desentortou a curva. Dentro do território do simbólico, a escola devolveu a política ao povo. O seu lugar de origem. Não é pouca coisa.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

DUAS CORONAS NA MÃO, UMA NO BOLSO




o guitarrista inglês jack broadbent em seu show de estreia no Brasil, ontem, no bourbon street

(fotos de juvenal pereira)



Vendo Jack Broadbent tocar, na noite passada, no Bourbon Street Music Club, me ocorreu uma ideia antinatural, a de que a tecnologia não tem como vencer. Senti uma sensação juvenil de conforto. Porque a tecnologia pode forjar combinações inimagináveis, pode juntar as bases do Inferno com as do Paraíso, pode exumar a voz de Elvis e Nat King Cole e fazer Lady Gaga parecer k.d.lang, mas não pode traficar a pureza, a imprevisibilidade e a volúpia de Jack.

Jack entrou em cena com três garrafas de cerveja mexicana Corona, duas na mão esquerda e uma no bolso direito da calça. Na mão direita, a guitarra e o cantil de uísque que usa para fazer slide sobre as cordas do instrumento. Bebeu todas as três cervejas durante o show.

Jack é um britânico tímido, então usa umas “muletas” de gags como amálgama do show, costurando uma espécie de deboche quase mastigado entre as canções. Tipo assim: “Vocês estão se divertindo? Não deviam, isso é blues...”.

Ele abriu com uma canção própria, On the Road Again, do seu disco Along the Trail of Tears, de 2015. A forma como ele desliza o cantil de uísque por cima das cordas, arrancando pele dos dedos ao dedilhar a guitarra, é um tipo de sacrifício físico que não faz mais parte do léxico do showbiz. Jack dá o sangue, literalmente.

Após tocar Wind Cries Mary, de Jimi Hendrix, canção do Jimi Hendrix Experience, de 1967, Jack disse sorrindo: “Jimi Hendrix. O melhor”. Alguém berrou Rory Gallagher na plateia. Jack disse que adorava o guitarrista irlandês, e que seu pai tinha tocado com Gallagher. Foi além: contou que o irlandês só tinha um problema: bebia muito (dizia isso enquanto fazia “sniffs” com o nariz no cantil).

Outro espectador pediu para ele tocar Little Wing e ele abriu mais a risada. “É uma só de Jimi Hendrix. O resto é minha própria porcaria”.

Mas não era só dele e definitivamente não tinha porcaria ali. Ele ofereceu uma linha evolutiva do blues e do folk na sua estreia no Brasil. Tocou Leavin’ Blues, de Leadbelly, o avô da música folk, uma canção de 1940. Depois, viajou para a urbanidade e mandou Moondance, do irlandês Van Morrison, canção de 1970.

“Essa foi para o meu pai. Mick Broadbent. Um baixista fodido”, disse Jack, após tocar Willin’, da banda Little Feat. Esse grupo setentista, Little Feat, foi liderado pelo guitarrista Lowell George (a música, reza a lenda, foi o motivo de George ter sido demitido da banda de Frank Zappa, Mothers of Invention, porque a canção falava de drogas, “weed, whites and wine). Durante a gravação original de Willin’, Lowell George machucou a mão e não pode fazer o slide, então chamaram Ry Cooder para tocar no disco, que é de 1971. Então, vocês podem imaginar o que foi um ex-busker como Jack enfrentando à frente de uma plateia de iniciados um slide guitar que já teve Ry Cooder dichavando. E saindo dele aplaudido entusiasticamente - nada mal para quem disse que teve medo de chegar aqui e só encontrar cinco pessoas na audiência.

O visual “stoned” de Jack, magrelo e barbado como um dos Freak Brothers, era referendado pelas brincadeiras. Usando uma caixa acústica como banquinho, ele provocou a plateia, indagando se não havia nada que quisessem saber a respeito dele. Um gajo devolveu: “O que tem no seu cantil?”. Jack deu sua risada soluçante de novo e respondeu: “Cocaína”. Alguém o convidou para ir à sua casa depois do show e ele disse: “Se tiver maconha eu vou”.

Depois, quase perto do bis, Jack tocou Hit the Road Jack, de Percy Mayfield, de 1960, talvez o maior sucesso de Ray Charles. “Soube que Ray Charles cantou aqui”, disse. Sim, cantou. Exatamente no mesmo lugar onde ele tocava, há 23 anos.

Após uma hora de show, Jack começou a olhar para o relógio. Fez isso umas três vezes, rindo. Depois, arrancou o relógio e jogou no fundo do palco, perto do violão. Perguntou se já era Carnaval e festejou: “Amanhã estarei no Rio. Assustado”, brincou. Ele toca esta noite e amanhã no Blue Note carioca e não é de perder.

Jack tocou uma canção inédita, If, que estará no seu novo disco, gravado em Nashville, no Tennessee, com produção do tecladista do Lynyrd Skynyrd, Peter Keys. Mostrou um falseto admirável numa balada linda, Too Late. Alternava violência nos arremates do cantil de uísque contra as cordas da guitarra e um dedilhado preciosista no violão.

No início da tarde, Jack Broadbent veio caminhando do seu hotel na Avenida Ibirapuera até o Bourbon para passar o som e terminou a noite abraçado com os fãs no centro do clube, ao lado da guitarra Lucille, doada por B.B.King. O blues dominava a noite novamente.




terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PANTERA NEGRA





PORQUE PANTERA NEGRA É UM FILME MEIA BOCA


Se alguém lhe disser que Pantera Negra é um filme político, pergunte:Qual é a lição política do filme? Difícil que consiga responder. Algumas possibilidades: é político porque mostra que nações poderosas têm a obrigação de doar para instituições de caridade dos desvalidos? Países da África bons são os países da África que têm dinheiro? Os outros são passíveis de doações e caridade e não têm contribuição a dar? Nações poderosas não podem vender armas ultraletais no mercado porque é prudente guardá-las para si? 

No filme, a grande esperança negra que é Wakanda (a potência africana secreta na qual o Pantera Negra é rei) detém alta tecnologia, alto conteúdo ético, alto debate de responsabilidades, tem representação na ONU, mas depende que um bem-intencionado agente da CIA (?) presencie suas boas intenções para reportar isso ao Grande Irmão Branco do Norte. Um dos dois únicos brancos da história tem a função de testemunhar que, sim, aqueles são bons pretos. Pior: sem ninguém que saiba pilotar um avião, Wakanda recorre justamente ao agente da CIA para detonar mísseis no ar, heroicamente. Se estou errado, digam-me: qual é exatamente o papel de Everett Ross (Martin Freeman) na trama toda?

Os furos do roteiro são muitos. Pantera Negra dispõe de uma poção ancestral que o faz “domar” um carro em alta velocidade, apanhá-lo pelos “chifres” e derrubá-lo como a um bezerro no rodeio, só que no asfalto. Mas quando ele usa essa mesma poção ancestral para enfrentar o vilão do filme, Killmonger, que não dispõe de poção alguma, ele leva uma surra. Aí, a mesma poção o “ressuscita” do mundo dos mortos e ele retorna ao combate e derrota o vilão. Explique essa.

É bonita a cachoeira de Foz do Iguaçu do filme? Olha, a cerimônia de coroação dá pinta de audiência de programa de auditório na TV. A África pode evoluir séculos à frente, mas na ficção de Hollywood sempre vai ter uma luta de tanga numa cachoeira com tambores e um homem-gorila desafiando a hereditariedade do Tarzan of the Apes do momento.

Filmes de super-heróis dependem de verossimilhança, algum senso de credibilidade. Claro que as grandes mirabolâncias fazem parte da trama, mas elas só fazem sentido se todo o resto ficar em pé. Se o heroi, com suas garras, transforma uma Mercedes sedã em conversível em 3 segundos, como é que ele berra de dor só com um arranhão de uma lança? Pantera Negra é fraco, embora divertido em alguns momentos. Mas um filme não se sustenta só com algumas gags e boa música. A principal batalha, com os rinocerontes marombados no meio, é risível.

Quanto à associação com o partido dos Panteras Negras, o filme é meio desleal. A citação é evidente em vários momentos, mas o verdadeiro Pantera Negra é o vilão, Killmonger. Sua sede de vingança precisa ser punida, não tem como prosperar. O filme só vê política na anuência, na concordância, na aceitação dos desígnios da geopolítica internacional.

Aceitando-se a tese de que é uma metáfora da entronização de Obama e sua família (Lupita seria Michelle, ativista por fora), é ainda mais chapa-branca. Equivale a um habeas corpus para Obama.


Vejam bem: essa é só UMA opinião, a minha opinião. Não ajam como doidos. Podem ficar com a outra opinião tranquilamente.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

HIT THE ROAD, JACK!












Há uns 4 anos, Jack Broadbent tocava nas ruas de Amsterdã. Era um busker, um músico de rua. Faz slide guitar usando um cantil de uísque sobre as cordas do instrumento. Pelas artes e maravilhas da tecnologia, um vídeo seu tocando na rua viralizou e, no ano passado, Jack já abria shows para o lendário southern rock da banda americana Lynyrd Skynyrd. Foi apresentado, no Montreaux Jazz Festival, como “o novo mestre do slide guitar”. Agora, pela primeira vez, ele desembarca no Brasil para um show no Bourbon Street (eleita na semana passada uma das 100 melhores casas do ramo do mundo pela prestigiosa publicação Down Beat). Será no dia 8 próximo, quinta-feira, 22h30, na Rua dos Chanés, 127 (ingressos a R$ 75 e R$ 95). Broadbent concedeu a seguinte entrevista ao blog:






Por que o blues? Por que o slide guitar? Qual é o lance?

O jeito como cheguei ao slide guitar usando o cantil de uísque foi quase por acidente. Eu tava tocando em um pub e o dono do pub subiu do porão com uma caixa cheia de cantis de uísque. Olhei pra o cantil e pensei: "vou experimentar!”. Fiquei instantaneamente conectado, aquilo me deu liberdade para tocar com um estilo diferente e a energia era arrepiante. O blues é um sentimento, eu fui de fato influenciado por músicos antigos, dos anos 1920, 1930, até os anos 1950. Há um coração e uma verdade nessa música que é duro de descrever, mas fala ao meu coração num nível emocional. Creio que o blues, como nenhum outro gênero, tem essa conexão emocional.

Aqui no Brasil, Milton Nascimento costuma cantar “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Você concorda?

Já se passaram muitos anos desde que eu toquei nas ruas, mas eu acho que Milton Nascimento está absolutamente certo, porque eu aprendi muito tocando nas ruas. O fato de você não ter um público cativo quando está nas calçadas faz com que você tenha que trabalhar ainda mais duro para atrair a atenção das pessoas e desenvolver um senso de espetáculo que seja distinto, um estilo. Eu me diverti muito tocando nas ruas e encontrei muita gente maravilhosa. Sinto falta às vezes, mas recomendo a todos que estejam começando. Mas hoje sou muito grato por ter um telhado sobre a cabeça, que me mantém abrigado do mau tempo. Hahahahahaha.

Abrir shows de Peter Frampton e Lynyrd Skynyrd era algo que estivesse em seus planos?

Acredite ou não, eu não era muito familiarizado com Lynyrd Skynyrd ou Peter Frampton antes que me fosse oferecida essa oportunidade de abrir shows deles. Mas eu rapidamente me tornei fã da banda.Também, tocar na frente de 10 mil, 15 mil pessoas por noite era algo que eu nunca tinha experimentado antes. Eu fiquei apaixonado por aquelas audiências massivas. Também fiz grandes amigos durante as turnês e estou gravando um álbum de rock, blues e folk music com Peter Keys, tecladista do Lynyrd Skynyrd, em um estúdio de Nashville. Em termos de influência, ouvi muito Little Feat, Steely Dan, Joni Mitchell e, é claro, Neil Young.

Muitos críticos veem o blues como uma forma de arte conservadora, sem grande evolução. Como vê essa afirmação?


Acho que, na verdade, o blues é um gênero que está sempre mudando, até o ponto em que o termo “blues” se tornou algo meio vago. Eu chamo a mim mesmo de bluesman, mas eu não toco realmente o blues de 12 compassos, sou mais do som do Delta, um artista das raízes e do folk com um coração do blues. Acho que é importante se manter tentando coisas novas. Neil Young é uma inspiração para mim no sentido de que ele segue fazendo uma música que desafia os gêneros. As pessoas falam em manter o blues vivo e eu acho que, se o blues está sendo relevante para as próximas relações, é porque ele se mantém aberto à inovação e o crescimento.