domingo, 11 de junho de 2017

FELIZ REGINA


poeta no espelho (foto: jotabê medeiros/agência poltrão)


Noite passada fui a um sarau de poesia na Vila Romana.
38 Social Clube era o endereço. Havia poetas de cavanhaque, poetas de óculos escuros, poetas do vídeo e da palavra, poetas que declararam seu amor pelos loucos, poetas que queriam o efeito de um meme de internet e outros que lamentaram divertidamente não ter morrido por volta dos 20 anos, como Álvares de Azevedo.
Tomavam vinho e coca-cola e deram boas risadas.
Foi então que conheci Claire Feliz Regina.
Ela não era poeta até os 79 anos. Ou era, mas ocupava-se no trabalho de auditora da Receita Federal.
Agora, ela vai fazer 90 anos.
Foi descoberta pela poeta Elisa Lucinda.
Claire fala de maneira desconcertantemente simples de sexo e de sua imaginação feminina no coração das obsessões do mundo masculino.
Na despretensão literária de Claire, esconde-se uma poeta astuta. À sua maneira, reinventa o poeta fingidor de Pessoa.
"Uma mulher como eu/Sempre mente/Mente o que não sente/Mas sente muito o que mente".
Ela me lembrou a Orides Fontela, uma escritora que existiu antes da rendição, rejeitando o estereótipo de idosa.
Em 2014, a Patuá lançou seu livro intitulado Poemas Eróticos.
Pedi para fazer a foto dela na frente do espelho da Sociedade dos Poetas Vivos. 
Ela me disse que sempre leva um de seus livros para sortear entre os presentes. Dessa vez, ela tinha me sorteado antes e me ofereceu o livro. Só disse que estava cansada demais para fazer a dedicatória ali, pediu que eu a encontrasse no Facebook e pedisse sua amizade, que depois ela escreveria para mim.

domingo, 4 de junho de 2017

FOXEY LADY



malina moye entra em cena pelo meio do público ao iniciar seu show no samsung blues festival


Eu não sou guitarrista, mas vi shows de Jeff Beck, Joe Bonamassa, Eric Clapton, David Gilmour, Robben Ford, Jimmy Page, Steve Vai, Nile Rodgers, Dereck Trucks, Mark Knopfler, Warren Haynes, Johnny Marr, B.B.King, Buddy Guy, John Pizzarelli, Edgard Scandurra, Robertinho do Recife, Lanny Gordin. Também vi Ritchie Blackmore, Pete Towshend, The Edge, Toni Iommi, Keith Richards, Joe Strummer e outros com suas bandas.

Não estou me “gambando”, como dizia um amigo antigo gozador. Essa introdução é só para dizer que não vi muitas mulheres guitarristas. Vi Joan Jett, um clássico. Também vi Kaki King. E Joni Mitchell. Vi Ana Popovic, blueswoman já de grande popularidade, e ela é de fato uma grande guitarrista. Mas, emparelhando, nenhuma integraria um Top 10 com os homens das últimas três gerações, ao menos não as que eu vi tocando.

Acredito que as mulheres não fincaram posição no Olimpo da guitarra porque podem ter se intimidado face a uma linguagem que ficou cercada de símbolos masculinos, do falo à potência, e também (como no futebol), uma atividade de fanática adoração masculina, feita de deuses e sacerdotes machos.

Tudo isso para concluir: Malina Moye está entre os 10 melhores novos guitarristas da atualidade, entrou tranquilamente no Top 10. A Guitar World a coloca como uma das 10 Melhores Guitarristas Mulheres, mas ela ocupa o mesmo lugar entre os homens. Não sou guitarrista, não tenho elementos tecnocráticos para afirmar isso, mas estou falando como uma mera Testemunha do Riff Eterno.

Malina Moye tocou na noite de sexta-feira no Samsung Blues Festival, em São Paulo. Ela podia ter se esmerado em fazer parte do time do blues para agradar a plateia, mas o fato é que ela é muito mais do funk e do R&B. 

Ela é amiga de Bootsy Collins e foi ao programa do Arsenio Hall. Ela tem Prince como referência. E Stevie Ray Vaughan. Portanto, ela faz barulho, é estridente e instala o caos, não o armistício.

Malina Moye entrou em cena com sua guitarra tocando pelo meio da plateia. Antes dela aparecer, a banda fazia um aquecimento agressivo, e era uma banda de jam funky, com bateria e baixo mais altos, um teclado Korg, outro Yamaha, um guitarrista base. E mais uma vocalista soul sista de apoio, inacreditável. Era mais Sly and the Family Stone do que blues elétrico. Malina é sexy e abusada.

Ela tem canções que tocam no rádio, disse que uma dessas músicas, Alone, que começa com samples e uma gravação distorcida, chegou às paradas da Billboard (não fui checar). Quase tudo é acelerado, tem um peso de periferia, como Ky-Otic, e ela chega a tocar esfregando as cordas da guitarra no pedestal do microfone, mas tem baladas fabulosas, como You're the One.

Os solos de guitarra de Malina têm virtuosismo, velocidade, imprevisibilidade, tudo isso. Mas têm algo mais: carregam um depoimento sobre a vida e uma emoção que criam rara intimidade com nossos sentimentos. Alcançam algo muito profundo.

O equipamento do festival ferrou com ela a certa altura do show, o som estourando e a guitarra sumindo, mas ela não parou o show para reclamar. Ela seguiu tocando e improvisou, cantando, enfiando na música um apelo para que devolvessem “my fucking guitar, my fucking wah wah”. Gênio. Terminou tocando Jimi Hendrix, Foxy Lady.

Considero que o show dela foi um dos grandes acontecimentos do ano. Se eu estiver enganado, terei sempre aquela certeza suave (e arrogante) de que acertei solitariamente. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A CASA DE IVAN






No ano passado, no dia do Natal, uma viatura da polícia passou e o policial perguntou a Ivan, que dormia na praça Haya de la Torre, uma ilhota na Avenida Juscelino Kubitschek, quase Avenida Santo Amaro, em São Paulo: "Você já comeu hoje?".
Como a resposta foi negativa, os policiais o mandaram a um restaurante no shopping ali perto, para que comesse, e pagaram sua conta. Na volta, Ivan achou um monte de madeira. Começou então a construir sua morada naquela mesma praça.
"Eu dormia na calçada, mas as pessoas não enxergavam. Aí eu construí uma casinha de bonecas, assim passei a ser visto", ele diz, com o entusiasmo de quem tem uma história única para contar.
"Ao todo, até hoje, gastei apenas R$ 4,60 em pregos. O resto tudo achei na rua".
Uma boneca chama outra. Ivan passou a construir casinhas de boneca na praça. O canteiro, abandonado e seco, ele encheu com mudas de plantas que achou nas caçambas.
Sua própria casinha de boneca, onde viveu nos últimos 5 meses, foi sendo decorada. Fez armários e guarda-roupas para seus pertences. Reformou um abajur e de uma sirene de saída de garagem ele fez um poste de iluminação. Há uma garrafa de Jack Daniels na prateleira da cozinha. Há livros e revistas e a cama está impecavelmente arrumada. Há tapetes de boas vindas e fontes de eletricidade alternativas, baterias.
"Sou um morador de rua, não sou outra coisa. Mas quando eu decidi viver na rua eu pensei que queria continuar sendo eu mesmo", ele diz.
Conta que veio parar na rua após uma separação traumática. Essa parte eu vou pular porque precisaria ouvir a ex-mulher dele para saber se é verdade o que diz.
Seu capricho chamou a atenção: ganhou várias latas de tinta para pintar seus artefatos, e serrotes, e martelos, e alicates.
Há algumas semanas, uma mulher que trabalha em um dos edifícios de escritórios na região começou a tentar Ivan com uma proposta: levá-lo para ser caseiro de seu sítio. Ele é um ás na jardinagem. Ele foi negociando, até que topou. No dia 20, as casinhas de boneca de Ivan abandonam a avenida. Ninguém quer viver na rua para sempre.
Ivan nasceu em Ipirá, Bahia, a 86 km de Feira de Santana.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

JACK

jack dando banho no meu pai



Os bombeiros ligaram as sirenes de seus caminhões quando começamos a caminhada. O professor Guerreiro tocou ao violão uma versão acachapante de Wish You Were Here. Os amigos de bandas também estavam lá e tocaram Raulzito e Tim Maia. Nino trouxe uma camiseta do Led Zeppelin e cobriu seu peito com ela. Também estendeu um estandarte do Palmeiras. A turma de escola da Duda pediu para vir visitar e, em fila indiana, crianças entravam e saíam chorando da sala. As crianças o amavam. Veio gente muito jovem e gente muito idosa, e um cachorro passeou pelo meio das pessoas, como um amigo íntimo.

“Escreve algo lindo para ele, pai”, tinha me pedido Laura um pouco antes do embarque para o funeral, em Congonhas, enquanto comíamos uma refeição que descia como pedra no meu estômago. “Não consigo, filha”, respondi. Eu sentia que nunca conseguiria, me parecia uma heresia usar meu instrumento comezinho de ganhar a vida para falar do meu irmão, ele era muito maior que os truques de redação, a vaidade empostada do textão, o jogo de montagem de palavras do Word.

Mas, conforme o carro atravessava o céu flamejante sobre a ponte do Rio Ivaí, na segunda-feira, eu começava a me dar conta que era inescapável escrever algo. Porque as coisas da nossa vida vinham à minha cabeça pedindo para fugir, um torvelinho de imagens, um slide show sem cronologia. E também porque Jack era meu maior leitor, ele teria sentido falta.

Jack foi um heroi de verdade. O único que conheci em minha vida. Com apenas 11 anos, ele se atirou sobre meu pai para evitar que batesse em minha mãe, e foi surrado e expulso de casa. Esconderam-no na casa do Tio Zé, em Umuarama, até que minha mãe fez meu pai fingir que o perdoara. No final da vida, ele cuidou do meu pai e providenciou que ele tivesse uma sobrevida que nunca teria tido se não fosse aquele afeto.

Nessa mesma época, fomos tomar banho no rio que passava sob os trilhos do trem. Apareceu um cara, já com uns 18 anos, bem mais velho, que ficou puxando conversa. Quando íamos voltando, o cara veio nos seguindo. Eu andava um pouco à frente. Olhei para trás e vi que o sujeito puxara uma faca e foi para cima do Jack. Jack usou a camiseta como um lenço de toureiro e a faca rasgou a camiseta. Eu enchi as mãos de pedra brita e desferi uma saraivada de pedras no cara, que recuou. Jack também se armou e o expulsamos para o mato.

Na era da discothèque, minha irmã Salete fez roupas para a gente copiando os modelos que o Tony Manero usava nos Embalos de Sábado à Noite. Minha irmã Neide nos ensinava a dançar. A gente andava imitando os maneirismos de Travolta. Foi quando sacamos que Jack era o próprio Tony Manero. Era um Travolta de arribação, nosso sorridente transgressor de punhos de aço. Tinha um imã para a sedução e outro para a encrenca.

Jack sempre abrigou os outsiders. Quando moleque, ele se tornou amigo de um garoto chamado Dé, que andava descalço e tinha um cachorro feio de nariz vermelho que pingava, como se gripado. Ninguém queria ser amigo do Dé, mas o Jack era. Dé era a sua sombra. Nesta terça, na despedida de Jack, duas figuras vieram me dizer que tinham perdido seu único amigo. Uma delas foi o Futata, que me chamou para segui-lo. Eu fui, e ele me levou até o Bar do Du. “Ele me trazia aqui toda vez que eu o visitava, e a gente comia torresmo e tomava cerveja. E depois jogava sinuca”. Imitei todo o percurso, comi o torresmo, tomei a cerveja e joguei com o Futata. Empatamos a partida em um a um.

Em Curitiba, em 1980, Jack e meu primo Edson baixaram na quitinete que eu alugara na Cruz Machado. Para ficar. Ouvíamos Hurricane o dia todo e alimentávamos a esperança de um convite para bailes de debutantes lá no Batel. Éramos tão famintos que Jack e Edson planejaram uma vez matar uns patos do Passeio Público para comermos. 

Jack era tão destemido quanto maluco. Quando voltou da Legião Estrangeira (serviu em Marselha, essa é uma longa história), ficou uns dias na casa de um outro soldado que deu baixa. Escrevi para lá, já fazia um ano que não tinha notícias dele. Era o endereço que tinha no envelope que chegara em casa com um hinário de canções da Legião. Escrevi em português, para o Jack. Um francês me escreveu de volta em um papel datilografado, que guardo até hoje: “Jack saiu de casa há uns 5 dias. Tinha 400 francos no bolso e botas quentes. Disse que ia para Barcelona”.

Quando regressou ao Brasil, Jack bateu na porta de minha casa em São Paulo. Toda hora revirava a mochila em busca de algo. Eu perguntei o que era e ele disse: “Meu hâmster. Sumiu no dia em que eu tava embarcando para cá”. Dois dias depois, algo fedia tanto no quarto que ele achou o hâmster morto dentro das suas botas de neve de legionário.

Ao voltar ao Paraná, foi de carona até São Jorge do Patrocínio e, ele e meu irmão Marcelo, quando passavam em frente à delegacia de Altônia, dois policiais do destacamento implicaram com a mochila de andarilho que ele levava às costas e lhe deram voz de prisão. Dentro da delegacia, o sargentinho cometeu a burrice de dar um sopapo no Jack, que se virou e lhe deu um soco tão potente que o cara apagou. Os outros dois vieram e foram igualmente moídos na pancada. O pequeno destacamento estava destroçado, na frente do apavorado delegado. O caçula da família, Marcelo, pediu que Jack fosse razoável e se entregasse. Ele colocou as mãos para a frente e o algemaram. Tentaram bater nele de novo, e ele pegou um cabo de vassoura e desceu o sarrafo, mesmo algemado, e os encurralou num canto. Colocaram na cela do cara que diziam que era o mais perigoso. Ele e o cara ficaram amigos. No dia seguinte, o Futata (o mesmo da sinuca e do torresmo) foi até a delegacia com um advogado, pagou a fiança e soltaram meu irmão.  

Eu lembrei do Jack vindo à minha casa em Curitiba, no tempo em que trabalhou numa agência do Bamerindus em que eu tinha conta: “Peguei sua ficha no banco. Já tinha três carimbos de cheques devolvidos. Rasguei”.  Mas Jack, eu ponderei, isso pode te trazer problemas, porque fez isso? “Fichas somem todo dia. Não tem problema”. Fizera aquilo para evitar que eu fosse bloqueado pelo Banco Central.

Em São Paulo, certa vez, ele e meu irmão caçula, Marcelo, vinham descendo uma rua ali paralela à Consolação quando ralaram um carro estacionado. Ao pararem para ver o que tinham feito, três brucutus começaram a bater neles com uma trava de volante. Eles reagiram e trituravam os caras quando uma viatura da PM chegou e deu voz de prisão. Pegou seus documentos e mandou que os seguissem ao DP. Eles seguiram duas quadras, viraram à esquerda e fugiram. Eu estava de plantão na redação, na Barão de Limeira, quando me chamaram da portaria. Pedi e o Tognolli resolveu a parada com um telefonema para o delegado, que os chamou para uma bronca e devolveu os documentos. 

Jack trabalhou para a máfia coreana do Bom Retiro, colheu maçãs no Sul da França, foi frentista noturno do Posto São Jorge, alimentou uma infinidade de gatos e cães da rua, foi dono do mais impressionante sebo de discos do País, fez móveis rústicos nos fundos de casa para vender e chorou quando assistimos The Doors com o vocalista do Cult, Ian Astbury, no antigo Credicard Hall.

Seu nome veio de Jackson do Pandeiro, que minha mãe curtia. Seus muitos sobrinhos foram todos influenciados por ele: Alessandro, Diego, Guga, Guilherme, Michele, Claudia, Paulinho (muito), Paulo de Célia, Cris, Marlon (muito), Tê, Matt, Lau e finalmente o pequeno Bento, último a reivindicar sua atenção exclusiva por dois dias inteiros.

Marcelo, nosso caçula, se tornou subtenente do Corpo de Bombeiros. Mas não foi por lealdade ao oficial Medeiros que todo o Corpo de Bombeiros foi até a despedida: todos amavam Jack verdadeiramente. Vieram todos uniformizados, com suas viaturas muito limpas e as calças bem passadas. Eu não pude evitar o clichê (e Jack não tava nem aí para clichês, comia com farofa de carneiro) de pensar no poema de Auden, especialmente a parte dos policiais com luvas pretas de algodão:

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
"Ele está morto"

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.

Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.



Ele foi aplaudido no final e deixou um vácuo que se alastrava como uma neblina triste no momento em que tivemos que ir embora para nossas casas. Uma das minhas irmãs, não lembro qual, me pediu para agradecer aos presentes quando o corpo de Jack já tinha baixado à sepultura. Eu tentei falar e saiu um uivo medonho. Só consegui dizer que foi lindo, foi tudo muito lindo.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

VIP-RADA CULTURAL






Além do anúncio de que fará shows em recintos fechados em Interlagos e Sambódromo, João Dória Jr. divulgou no Diário Oficial do Município que a Virada Cultural, nos dias 20 e 21 de maio, terá "estrutura qualificada de atendimento" - o que permite deduzir que estão pensando em áreas VIPs e cercadinhos para a "gente diferenciada".
A Prefeitura está vendendo, até o dia 20, cinco tipos de cotas de patrocínio para o megaevento - o mais barato custa R$ 300 mil, o mais caro custa R$ 4 milhões. A Virada Cultural de 2016 custou R$ 15 milhões. O anunciante poderá expor sua marca nas laterais dos palcos, na testeira dos palcos, nas lixeiras, banheiros e guarda-sóis do evento.
A Virada Cultural 2017 prevê 900 atrações nos palcos, 200 a mais do que em 2016, a última da gestão Haddad. A maior aposta de Doria, além dos eventos em recintos fechados, é numa "maior ocupação territorial".







PARIS BRILHA SEMPRE




Zaz veio, Zaz cantou no Espaço das Américas, no dia 2, e eu não fui. Era dia do aniversário do João e foi um dia muito atarefado. Mas eu a entrevistei. Eis a íntegra da entrevista.



Jotabê Medeiros

O Chatêau de Crussol são as ruínas de um castelo do século 12 no Vale do Rhône, na França. Outrora ocupada pelos romanos, a região será dominada, nos próximos dias 8 e 9 de julho, pela entourage da cantora francesa Zaz e seu “festival cidadão”, que ela batizou de Zazimut, e que reúne conferências, feiras, ateliês artísticos e muita música. “Também estamos a caminho de lançar um game de comunicação não violento que se pode aplicar a uma classe de alunos, no decorrer de um programa escolar. Sem falar de todos os outros belos projetos que tenho na cabeça, que quero realizar em breve. É excitante”, me contou uma esfuziante Zaz.

A França produz superestrelas planetárias em doses homeopáticas, e o pop de Zaz é uma dessas pílulas: em pouco mais de 5 anos, a cantora, nascida Isabelle Geffroy às margens do rio Loire, em Tours, no centro da França, acumula façanhas. Vendeu mais de 3 milhões de discos de seus primeiros dois álbuns e tocou em mais de 50 países.

Misturando gipsy jazz com a música francesa tradicional, ela chegou a ser chamada de “nova Piaf”, comparação que detesta. Antes da fama, Zaz ralou bastante. Cantou em cabaré durante 5 anos, sem microfone. E também se apresentou nas ruas de Montmartre. Descoberta pela facilidade de interpretar o jazz, sua música entrou na trilha sonora do filme A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese e ela fez dueto com Plácido Domingo em Le Chason Des Vieux Amants. Paris, seu disco de 2015, teve produção de Quincy Jones.

Mas ela não quer só confetes, como explicou na entrevista. “Eu sempre pretendi que a energia de minha música, minha notoriedade, sirva a algo mais além de procurar proporcionar prazer ao público”. O projeto Zazimut, que engaja ONGs e associações por onde passa, é sua atual menina dos olhos, sonho de garotinha. Desenvolve ações e pesquisas com propósito de renovar sistemas educativos. Para financiar isso, ela utiliza a venda de produtos derivados de sua carreira e shows beneficentes, que já atingiram 100 cidades em 20 países, estabelecendo conexões entre o público, as estruturas locais e ações não lucrativas.
Em 5 anos, você ocupou lugar de superstar da música francesa. Dizem que superpoderes trazem também super-responsabilidades. Você sente essas responsabilidades?

Sim, é claro que as portas se abrem mais facilmente por eu me chamar Zaz, mas há também o outro lado da moeda: a perda de liberdades, a ausência de anonimato. Além do mais, eu quis investir na sociedade, deixar a impressão de ter feito algo que é maior que as coisas que me causam descontentamento. Eu quero contribuir para um mundo mais respeitoso com os seres da terra. Com meu projeto Zazimut, nós destacamos pessoas que encontramos por toda parte para onde levamos nossos concertos, além das associações, as ONGs. E é genial de ver todas as belas iniciativas, o cidadão que não espera que os outros façam em seu lugar. É como a lenda ameríndia do colibri, alguém que faz a sua parte com seus próprios movimentos. Todo esse entusiasmo que gera esse belo projeto e todas as frutas que colhemos, eu acho fantástico. Estou certa que a primeira edição do festival Zazimut será uma bela aventura. Eu sempre pretendi que a energia de minha música, minha notoriedade, sirva a algo mais, além de procurar proporcionar prazer ao público. Com Zazimut, é meu sonho de menina que eu concretizo. Penso que o mundo está em plena mutação. Sabemos que há muitas demandas e que é muito difícil fazer prognósticos, em especial sobre a política. Podemos ver as coisas de maneira positiva ou negativa. Eu prefiro ver o copo meio cheio do que meio vazio, pensar que teremos um mundo melhor a seguir. Essa não é senão uma etapa de transição. Penso que as coisas estão melhores se comparamos com o século 20 ou mais para trás.

Seu novo espetáculo é uma invenção do designer Laurent Seroussi, que foi colaborador de Henri Salvador, Françoise Hardy, Yael Naim. Qual imagem de Zaz que Seroussi trabalhou?

É tudo completamente uma colagem de Laurent. Ele é muito criativo e captou meu universo de forma tão onírica quanto realista. Em pouco tempo ele inseriu a poesia no espetáculo, em colaboração com Nicolas Guilli, que é o designer de iluminação e que para mim é um verdadeiro poeta. Para ser sincera, eu tenho verdadeiramente uma bela equipe de técnicos em torno daquilo que sublima o espetáculo, e isso é essencial. Sem falar dos músicos, obviamente. Amo minha equipe!
Vivemos hoje o império do R&B, bastante dependente da dança, da produção, coreografia. A indústria musical te pediu para se aproximar desse universo?

Não, me pediu para propor alguma coisa de diferente ao público para entretê-lo. Há hoje muitos elementos exteriores à disposição para entreter sem se privar de nada. O espetáculo com o qual nós estamos indo ao Brasil (o show em SP foi no dia 2, domingo) não é o mesmo que mostramos em turnê na França, porque é muito complicado contratar todo o necessário para montar o kit completo. Vamos armar um belo compromisso para que vocês possam ver uma significativa parte do show.

A última turnê que você fez pela América do Sul foi complicada, você e o seu grupo tiveram problemas com aeroportos e tiveram que atravessar a Cordilheira dos Andes de ônibus. Que tipo de surpresa você espera dessa vez?

É verdade que foi doido, e o que nós lembramos no final é isso que se tornou um dos meus souvenirs de turnê que volta e meia lembrados. Hihihihihi!!!! Eu adoro os imprevistos. E depois, malucos como nós somos, nós nos adaptamos a tudo. Veremos qual será a surpresa dessa vez.

Na França, muitas das novas cantoras logo ganham o estatuto de herdeira de Piaf. É uma coisa boa, em sua opinião?

Não sei de nada. As pessoas precisam fazer as comparações, eu creio, e veem isso em certas referências, como Piaf, experimentando assim seu desejo de reter a estrela do passado, a nova Piaf. A mim, pessoalmente, isso me chateia!
Um ano e meio após o atentado do Bataclan, você acha que Paris se tornou uma cidade diferente? Há hoje um mundo muito mudado, há essa novidade do Trump nos Estados Unidos, o Brexit na Inglaterra, a direita fortalecida na França. Como você vê esse novo mundo?

Eu creio que as máscaras caíram. Creio que o mundo está em plena mutação. De toda maneira, para mim, é um momento em que se está a retomar a posse do livre arbítrio, e é uma coisa boa. Claro, isso conduz também aos extremos, é inevitável. Mas eu acredito nos atos cidadãos e muita gente não quer que o governo aja por ela. Vejo todas essas pessoas que se mobilizam para criar a sociedade que querem ver eclodir, por exemplo, na educação, na agricultura. Deve-se prestar atenção ao que eles reivindicam, não focalizar em seus aspectos negativos mas no que fazem de bom, que é alimentar a alma e o bem comum. Para mim, a nossa responsabilidade é difundir o amor, ante o risco de ficarmos sob o medo e ceder o poder a essas pessoas que não querem mais do que destruir. Eu fiz a minha escolha. Sim, Paris recebeu um golpe, mas Paris brilha sempre.


quinta-feira, 30 de março de 2017

O PESO PENNA

Guerra Fria, do grupo Papa Poluição


Rock star nos anos 1970, o potiguar José Luiz Penna, de 71 anos, é o novo Secretário da Cultura do Estado de São Paulo. É um dos dois principais líderes do Partido Verde (PV) - o outro é o contestado Zequinha Sarney. Penna tentou se eleger deputado federal em São Paulo em 2014, mas teve votação inexpressiva. Ele e o ministro da Cultura, Roberto Freire, são muito amigos e foram colegas de Partido Comunista.

O PV paulista é uma legenda que tem atuação no mínimo controversa: partido presumivelmente ambientalista, milita numa cidade onde há centenas de rios mortos (situação que não move uma palha para mudar) e é coligado com o PSDB, que governa o Estado há 22 anos e gastou bilhões para despoluir o Rio Tietê, devolvendo-o pior do que era.

Penna foi acusado por adversários políticos de “alugar” a legenda em diversas ocasiões, uma delas para que Marina Silva se candidatasse à presidência. Logo em seguida, após perder a eleição, Marina abandonou o partido. Em 2012, o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, um dos fundadores do PV, saiu da legenda, após acusá-la seguidamente de estar procedendo a uma “escoliose à direita”.

A trajetória de Penna nem sempre foi política. Quando era um dos três frontmen da banda Papa Poluição, nos anos 1970 (ao lado de Paulo Costta e Tiago Araripe), ele defendia um conceito de rock misturado a regionalismo com resultado muito interessante (ouça acima). A banda foi formada em 1975 e gravou apenas dois compactos e tinha um coté meio Novos Baianos, embora o rock predominasse sobre a pesquisa de ritmos. “O pessoal da MPB dizia que éramos roqueiros, os roqueiros diziam que éramos MPB”, lembra hoje Paulo Costta, guitarrista, vocalista e arranjador. 

Apesar do nome, o Papa Poluição não era um grupo de militância verde, segundo contou Paulo Costta. “O PV é coisa apenas do Penna, bem mais na frente”.